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Amar ou Depender?

2020.07.28 19:18 Alan-Bee Amar ou Depender?

Kon'nichiwa Luba-Chan, gatas, possível convidado, editores, papelões, 5° andar, turma que está a ver o vídeo, turma que está a ler o texto, etc...
Título: Amar ou depender?
Gostaria da opinião de vocês sobre isso, eu realmente estou muito mal com está situação =30
Minha história começa ano passado, eu conheci uma garota pelo Youtube, (na época dava para conversar e ter grupos pelo próprio YouTube)(OK BOOMER) e nós fomos nós aproximando cada vez mais, (obs:Sim isso é um web namoro ;-; mas antes de julgar só lê k7) vamos chamar ela de "Anhah". Eu e a Anhah éramos muito parecidas, nossos gostos de roupas, músicas e também sobre relacionamento á distância. Eu comecei a me apegar bastante a ela, nós falávamos todo dia 24h por dia até dormir de madrugada (normalmente eu dormia primeiro por causa dos meu ant-depressivos e para não explodir de ansiedade falava comigo mesma de madrugada não sei porque mas...Me ajudava muito.), Eu sou uma garota bem "tímida" com quem eu não conheço, mas no dia que nós conhecemos eu estava tendo um ataque de ansiedade e estava precisando falar com alguém urgentemente sobre isso, Já ela? Bem...Estava preparando seu suicídio (dizia ela ;-;). Bem nós ficamos assim até um dia que estávamos falando no Instagram e meu irmão descobriu (obs:ele tem 25 anos hoje) e ele tinha medo de mim mandar "fotos íntimas" pra ela; Eu nunca faria isso, respeito quem faz mais acho isso desnecessário, principalmente quando você não conhece a pessoa pessoalmente ;-;. Ficamos 5 meses sem nós falarmos até que no dia 28/01/2020 (meu aniversário) minha mãe permitiu eu ter o Instagram, então oque eu fiz? Acho que você já sabe :D eu mandei mensagem pra ela falando sobre tudo (ps: minha mãe tinha mandando um texto enorme pra ela """xingando""" ela) Ela me add no WhatsApp depois de alguns dias, eu chorei muito pois não esperava aquilo...Achava que ela iria ignorar. Bem, nós conversamos de novo e blá blá blá blá blá, até que meu chip é cancelado e eu perco as conversas, "mais você salvou o contato dela né?" Sim, mais eu comecei a perceber que eu estava muito.... Dependente dela e ela de mim...Então excluí o número....Eu não me arrependo de excluir, mais me arrependo de não falar pra ela que....Acabou...Sim eu sei que estou errada, mais quero dar um recado pra ela...
Anhah sua desgraçada que me faz rir toda hora...Sinto muito por acabar assim...Eu sei que eu deveria ter te falado mais....Eu não consigo...Lembra das brincadeiras que eu fazia falando que iria terminar mais no final falava que era "zueira", era pra você perceber que....Estava muito difícil continuar isso....Você não depende de mim para viver, então por favor, não se corte mais, não faça nada, lembra daquele garoto da sua sala? Então...Ele é um babaca por se apoiar em você toda hora...Mais ele não está perto POR você? Então...Eu não... Então eu só queria dizer que....Sim Anhah....Acabou...
(Nesse momento tô chorando muito ;----;)
Obrigada por me ler até aqui =30
Deixe sua opinião aqui por favor quero muito saber se estou certa ou errada (a parte de não contar eu sei que estou errada)
(Deixei muita coisa de fora mais vou estar respondendo comentários ao máximo :3)
Até a próxima história :3
Ass:Alan
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2020.06.15 21:48 gokufantastico A babaquice q habita em mim saúda a babaquice q habita em vc

Olá Lubixco e agregados! Como vai a vida de vcs nessa pandemia??
Obs.: caso queira fazer sotaque, sou mineira.
Dezembro do ano passado, conheci um menino q vamos chama-lo de Karls com K. Na verdade, eu já o conhecia de vista, mas n conversávamos. Ele havia conseguido o meu número por meio da Narls, uma amiga mto próxima da época, éramos praticamente inseparáveis.
De início eu não tava querendo papo com o Karls, mas acabei caindo em carência e cedi. Eu e ele nos dávamos até bem, até então parecia ter idéias que batiam com as minhas, e aparentava ser super compreensível tbm. Como sou emocionada me deixei levar por essas coisas mínimas. Ele escrevia super errado e sem vírgula, eu tinha q adivinhar oq ele falava. Definitivamente n precisa de mto pra me ganhar.
O negócio é q eu tava tão apegada q aceitei namorar com ele antes msm da gente ficar. Esse "namoro" durou uma semana. Aconteceu uns problemas familiares e eu tava sem cabeça pra menino. Tbm tinha perdido um pouco o encanto, ent terminei antes da gente ficar. Tempo depois pedi pra Narls arrumar ele pra mim pq eu queria recomeçar com calma dessa vez (alguém me cancela, eu n me decido).
Deixando essa parte de lado e voltando para a Narls, eu e ela éramos amigas principalmente pq fomos diagnosticadas com depressão, combinamoscde uma ajudar a outra. O problema é q nós duas tínhamos um jeito diferente de lidar com isso. Eu sempre preferi ficar mais no meu canto, sem apoiar a minha felicidade em alguém. Sempre acreditei q o vazio q eu sentia deveria ser preenchido apenas por mim mesma. Já ela se sentia melhor qdo tava na presença de pessoas q confiava. Essa diferença acabou se tornando um problema na nossa amizade. Eu me sentia cansada qdo tava perto dela, as vezes tudo q eu queria era ficar no meu quarto.
Enfim, n tô aqui pra me vitimizar. O fato é q mtas vezes eu me sentia pressionada em ter q sair ou ir na casa dela, ent negava. Isso a machucava mto. Por conta disso nos afastamos um pouco. Ela estava precisando de ajuda. Eu negava ajuda.
Partindo dessas duas situações vamos ao clímax da nossa história. A Narls tinha voltado de uma viagem e tava com saudade de todo mundo. Programamos de geral ir na casa dela, inclusive o Karls. De inicio eu aceitei, mas um dia antes da reunião, desmarquei. Eu e o Karls estávamos nos estranhando, ele andava falando umas coisas machistas e fez uma trolagem idiota me chamando por um whatzap fake com uma foto de um menino qualquer. Por eu ter respondido ele insinuou q eu era interesseira. Por conta disso n queria ver ele e decidi q ficaria em casa.
Acontece q a Narls ficou p da vida com isso. Onze pessoas iriam, n ia fazer falta se eu n fosse, mas msm assim ela foi no grupo q estávamos usando para combinar o rolê e disse q teria q cancelar pq duas pessoas lá de dentro n se suportavam. Ela fez isso pra me forçar a ir, mas n deu certo, tudo foi cancelado msm.
Ela acabou contando pro menino q eu n queria ir "pq n o suportava". Fazia um tempinho q eu tinha parado de contar algumas coisas pra ela, mas fiquei mto magoada pq antes msm dela saber o meu lado, foi logo fazer intriga com o garoto, ignorando a amizade q a gente tinha por pirraça.
Um detalhe importante é q eu n tinha me afastado totalmente do Karls depois das decepções e do tal fake pois direto ele falava o qto era depressivo (acho q n era diagnosticado por um psicólogo como eu e a Narls, mas ele realmente parecia doente).
A Narls tbm fazia questão de me falar q eu era a unica coisa q mantia ele vivo e o qto ele era perfeito (não a julgo, ele se mostrava um príncipe para as pessoas e eu raramente reclamava dele com ela). Fiquei com medo dele atentar contrar a propria vida se eu me afastasse ent fui empurrando as coisas. Pois é, errei em n ter sido sincera.
Bom, com a "revelação" da Narls, o Karls me mandou um monte de mensagens, -uma delas com a foto do Kurt Cobain, importante destacar - falando q eu era manipuladora e frisando a depressão dele. Nem respondi. Aquilo já tinha me desgastado demais.
Dias depois ele mandou um áudio me pedindo desculpas e outras duas personagens dessa história, a Marls e a Sarls, minhas atuais melhores amigas responderam por mim. Acho q elas pegaram um pouquinho pesado na forma q falaram com ele mas tava tudo a flor da pele e precisamos fazer jus ao título dessa história.
Eu e Narls nos afastamos cada vez mais e uns dias atrás conversamos e terminamos oficialmente nossa amizade. Se ela tiver vendo isso espero q n me chame pra perguntar nada kkkkk. Tudo oq falei foi revivendo cada momento, n to querendo briga, pelo amor de Deus. Apenas quis transformar a treta em conteúdo.
Sabe Luba, apesar tudo, eu e Narls nos desculpamos pelos erros. Gosto mto dela ainda, essas desavenças não apagam o qto ela já me ajudou. Nossa amizade acabou n indo pra frente mas desejo tudo de bom pra ela, tenho total respeito pelo oq vivemos, e torço pra q ela vença a depressão.
Qto ao Karls, espero q ele se trate tbm. Só eu sei como a minha ansiedade e depressão ficavam atacadas naquela época. Ele criou um personagem perfeito pra me agradar e sempre q ele saía desse personagem e eu ficava com vontade de me afastar, ele voltava todo compreensivo e depressivo. Mandava fotos explícitas das mãos dele sangrando por conta da automutilação, msm sabendo q eu tbm era doente e q poderia ser gatilho. Acho q ele achava q eu poderia salvá-lo de alguma forma, mas eu mal estava dando conta de mim mesma. Uma amiga me disse q isso era relacionamento tóxico mas prefiro acreditar q ele só estava mto confuso com tudo aquilo msm.
No fim assumo q tbm tive meus erros. Todo mundo fez alguma merda nessa história. Acho q é isso chat, desculpa o textão, bjos e menor q três.
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2020.03.26 21:02 Pohjigo Estadio da luz adormecido:

https://abola.pt/clubes/2020-03-26/benfica-estadio-da-luz-e-gigante-adormecido/835987/40
Ao ler o título desta notícia pensei que pela primeira vez alguém ia fazer referência às diferenças de ir à luz agora em comparação com há uns anos atrás. O título é enganador, eu sei, mas tocou-me num ponto frágil: A Luz anda adormecida, mas não é pelo coronavirus.
Não sei bem o que pretendo com este post, queria primeiro perceber se sou o único a pensar assim, seguramente não serei. E o que é que nós - Benfiquistas podemos fazer para o alterar. Sou presença assídua na luz, por vezes perto das claques, outras não. Os últimos jogos em que senti o verdadeiro inferno da luz foram contra o Fenerbahce nas meias-finais da liga europa e contra o Porto pós morte do Eusébio. Tirando raras excepções o ambiente na luz é inexistente ou perto disso. Precisamos de um golo para ouvir um bruar e os cânticos das claques não pegam para as centrais, às vezes nem para as imediações da claque, quanto mais para as centrais.
Não sei quanto a vocês, para mim isto é um problema. Cresci com outro tipo de ambiente e de vontade quando pensava num domingo de "missa" e a experiência de "ir à bola" era totalmente diferente. Podíamos inclusivamente jogar pior mas ir jogar à luz era algo a apontar no calendário das outras equipas, mais que não seja pelo ambiente - o estádio antigo ajudava - bem sei.
Temos dos melhores e mais apaixonados adeptos, porque é que não passa para dentro de campo?
O que é que precisamos de fazer para reanimar a luz? Que o Benfica cilindre todos os adversários? não é suposto ser assim, não podemos apoiar em função do rendimento, se assim fosse tínhamos acabado nos anos 90/princípios de 2000.
Penso que possa também ter que ver com as claques em si, apesar de haver distanciamento entre clube e claques. Que eu saiba não são oficiais, mas convenhamos... acabam por ser. Não me cabe na cabeça que os NoName (por exemplo e nada contra) a música mais ruidosa que tenham no repertório seja a "quem nós somos" numa alusão ao próprio grupo e não ao Benfica. Passando quase 90 minutos numa monotonia vocal que nos vai embalando. "benfica ou morte" e afins que mais parece que estão, de facto, a morrer que a puxar pelo clube. Mais uma vez, nada contra os NoName, antes pelo contrário, acho que são essenciais para inverter esta tendência - mas para isso precisam de inovar.
O único canto que nos dá vislumbres de o que o inferno pode ser é o "Benfica" bem carregado de uma bancada para a outra. A meu ver urgem-se novos cânticos, compreensíveis e "catchy" que passem para o resto do estádio e uma nova cultura em que gritar pelo benfica seja a norma e não motivo de vergonha (eu grito quando vou à bola, sempre gritei, e sempre gritei pelo Benfica. Quando era mais novo não tinha vergonha - sentia uma rede de amparo na forma de bancada por trás de mim que me apoiava no meu apoio. Hoje gritar pelo Benfica na luz destoa de uma bancada silenciosa que julga quem apoia ao invés de apoiar).
PS: Falei dos noname mas falava dos diabos também, é igual.
tl;dr - A Luz anda silenciosa, o que é que podemos fazer para inverter a tendência?
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2020.01.04 03:14 altovaliriano O Leão na teia da Aranha

Texto original: https://warsandpoliticsoficeandfire.wordpress.com/2016/02/05/heirs-in-the-shadows-the-young-lion/
Autores: GoodQueenAly; @BryndenBFish
Título original: Heirs in the Shadows - The Young Lion

Introdução

Tyrek Lannister pode ser considerado pelos leitores pouco mais que um personagem terciário em As Crônicas de Gelo e Fogo. A avaliação não é irracional: nem mesmo mencionado pelo nome no primeiro livro, aparecendo apenas duas vezes antes de seu misterioso desaparecimento na revolta violenta em Porto Real em A Fúria dos Reis , o jovem Tyrek merece pouco mais do que uma nota de rodapé entre seus parentes Lannister mais proeminentes, muito menos no grande elenco de personagens. Caso notado, ele pode ser lembrado apenas como uma vítima, no mesmo plano que seu primo Willem: um infeliz peão das ambições dinásticas de Lannister, um inocente assassinado pelo povo revoltado da capital.
No entanto, Tyrek desapareceu tão completamente - e tão misteriosamente - que, afinal, seu "simples" desaparecimento pode não ser tão simples. Em vez de ser um dos muitos corpos retirados das ruas nos dias e semanas após o tumulto, Tyrek pode estar vivo e bem (ou pelo menos relativamente bem). Ainda mais, Tyrek pode estar esperando para fazer um reaparecimento dramático em Westeros, enquanto é instruído e preparado por um improvável "aliado". Quem iria querer o jovem primo Lannister e o que poderia estar reservado para ele no futuro?
[...]

Apresentando o Peão

Tyrek Lannister nasceu por volta de 286 dC, o único filho de Sor Tygett Lannister e sua esposa Darlessa Marbrand. Sor Tygett era o terceiro filho de Lorde Tytos Lannister, um irmão mais novo do futuro Lorde Tywin e Sor Kevan. Como os dois irmãos mais velhos de Tygett se casaram e tiveram filhos antes do nascimento de Tyrek, não houve grande pressão sobre esse terceiro filho para se casar e procriar também (embora ainda não saibamos quando Tygett e Darlessa se casaram).
Em uma família mais pobre, Tygett poderia ter sido levado para a Muralha, a Fé ou a Cidadela para reduzir os estoques familiares, mas os Lannisters eram ricos o suficiente para sustentar as famílias dos filhos mais novos. Tygett também não teve que abaixar os olhos para encontrar sua noiva: Darlessa era uma Marbrand, uma casa vassala respeitável dos Lannisters (e parente da mãe de Tygett, Jeyne Marbrand).
Na época em que o bebê Tyrek nasceu, ele era possivelmente o nono na fila de Casterly Rock (dependendo se seus primos Martyn e Willem Lannister e Joffrey Baratheon já haviam nascido e se o pai de Tyrek já havia morrido). Ainda que outros pretendentes tenham enfrentado probabilidades menores (Aegon V pode ter sido o décimo primeiro na fila no momento de seu nascimento), a possibilidade de um recém nascido sentar-se no assento dos Reis do Rochedo parecia muito improvável.
Ainda assim, o jovem Tyrek não teve nenhuma sorte. Como Lannister (e especialmente Lannister do Rochedo), neto da linha masculina de Lorde Tytos, Tyrek nunca teria falta de dinheiro ou influência. De fato, sendo a rainha uma Lannister (e havendo um herdeiro “meio”-Lannister da idade de Tyrek), carregar o nome de "Lannister" faria com que até um membro da família de status relativamente baixo como Tyrek ganhasse importância.
Seu pai, Tygett, recebeu alguns elogios durante a Guerra dos Reis Ninepenny: embora muito jovem - possivelmente até mais jovem do que Tyrek quando desapareceu - Tygett matou um homem em sua primeira batalha e depois matou um cavaleiro da Companhia Dourada. Portanto, Tyrek descendia de uma safra de boa qualidade das Terras Ocidentais e, pelo menos, poderia ter esperado se casar com uma donzela nascida nas Terras Ocidentais quando tivesse mais idade.
A rainha Cersei, no entanto, tentaria elevar seu jovem primo Lannister ainda mais do que ele poderia ter imaginado:
Não conseguiu deixar de reparar nos dois escudeiros: rapazes bonitos, loiros e bem constituídos. Um tinha a idade de Sansa, com longos cachos dourados; o outro teria talvez uns quinze anos, cabelos cor de areia, um fio de bigode e os olhos verdeesmeralda da rainha.
– Aqueles rapazes – Ned lhe perguntou– são Lannister?
Robert assentiu, limpando as lágrimas dos olhos.
– Primos. Filhos do irmão de Lorde Tywin. Um dos mortos. Ou talvez o vivo, agora que penso nisso. Não me lembro. Minha esposa vem de uma família muito grande, Ned.
Uma família muito ambiciosa, Ned pensou. (AGOT, Eddard VII)
Ned foi perspicaz em sua conclusão: a rainha Lannister teve bastante iniciativa no aprofundamento das relações dos Lannister na corte (uma característica que mais tarde ela criticaria na noiva de seus filhos, Margaery Tyrell). Consequentemente, Cersei convenceu o rei Robert a nomear o jovem Tyrek seu escudeiro, junto com o primo de ambos, Lancel (o filho mais velho de Kevan Lannister).
Não se sabe quando Tyrek começou a servir o rei, embora provavelmente não tenha sido mais de alguns anos (se muito) antes do início de A Guerra dos Tronos. Para efeito de comparação, os dois Walders em Winterfell começaram a servir Ramsay Bolton por volta dos oito ou nove e Edric Dayne a Beric Dondarrion aos dez. Assim, Tyrek deveria estar com Robert há cerca de três anos antes da morte do rei, no máximo.
Quanto mais alto o cavaleiro ou senhor, maior seria a honra de ser escudeiro (a razão pela qual, entre outras concessões, Walder Frey exigiu que seu filho Olyvar se tornasse escudeiro do então Lorde Robb Stark), e nenhuma honra maior poderia ser concedida a um menino Westerosi que ser escudeiro do próprio rei.
A nomeação como escudeiro do rei poderia ser o começo de uma carreira na corte para Tyrek, semelhante ao começo cortês do tio Tywin como um pagem para Aegon V. O príncipe Rhaegar, afinal, transformou seus escudeiros, Myles Mooton e Richard Lonmouth, em firmes aliados e amigos. Se Tyrek provasse ser um espadachim tão talentoso quanto seu pai, poderia se tornar o mestre de armas da Fortaleza Vermelha (uma posição que Tywin realmente tentou, mas falhou, em garantir para Tygett). Com um primo na Guarda Real, uma capa branca poderia até estar no futuro de Tyrek (de fato, uma colocação na Guarda Real poderia ter servido para remover cuidadosamente um excesso de Lannisters do Rochedo). Dyanne Dayne pode ter assegurado um casamento real devido à sua nomeação para a corte da rainha Mariah Martell. Um noivado com a princesa Myrcella provavelmente era impossível para um mero primo Lannister, mas na corte Tyrek não careceria de conexões poderosas - enquanto os Lannister permanecerem no poder.
No entanto, também pode ter havido um lado mais sombrio em Tyrek ter se tornado escurdeiro - um não explorado nos livros, mas que, no entanto, é importante considerar à luz do possível papel de Tyrek no futuro. Espera-se que escudeiros sigam seus cavaleiros em todos os lugares, e o exemplo de Justin Massey demonstra que Robert poderia levar seus escudeiros a lugares estranhos:
Massey quer a princesa selvagem também. Ele certa vez serviu meu irmão Robert como escudeiro e adquiriu o seu apetite por carne feminina. (ADWD, Jon IV)
Esse "apetite por carne feminina" quase certamente incluía os bordéis de Porto Real que Robert visitava com alguma frequência. Tyrek era um pouco jovem demais para participar da maneira que Stannis disse que Justin Massey fazia (ou mesmo da maneira que Lancel poderia ter feito, se incentivado por Robert), mas ele não teria que passar tempo com nenhuma prostituta para observar algo muito mais perigoso que os adúlterios do rei.
Os leitores sabem que Robert tinha pelo menos um bastardo de uma prostituta de Porto Real: a bebê Barra, nascido de uma jovem prostituta de Chataya. A bebê, como todos os bastardos conhecidos de Robert, tinha o cabelo preto de seus antecedentes Baratheon - um fato que Mindinho não deixou de notar, o fez levar Eddard para ver a bebê e revelar a conspiração incestuosa dos Lannister.
Certamente, seria demais supor que Tyrek, um garoto de 12 anos, tivesse descoberto que os verdadeiros filhos bastardos de Robert tinham aparência de Baratheon, e que seus primos em primeiro grau eram, na verdade, bastardos nascidos do incesto de Lannisters. No entanto, Tyrek talvez tenha visto demais, mesmo que ele próprio não tivesse juntado as peças do quebra-cabeça. O escudeiro mais jovem do rei provavelmente viu em primeira mão os filhos bastardos de cabelos pretos do rei (com nove bastardos não registrados do rei, parece provável que pelo menos um outro além de Barra e Gendry tenha nascido onde o rei passava a maior parte do tempo: a capital) e, presumivelmente, era amigo de confiança e companheiro dos filhos de aparência Lannister da rainha. Se esse conhecimento fosse posto a disposição de um indivíduo mais ardiloso do que o inocente Tyrek, o garoto poderia se tornar uma testemunha útil na derrubada do regime de Baratheon-Lannister.
No entanto, Tyrek não precisaria servir Robert como escudeiro (ou segui-lo em suas aventuras lascivas) por muito tempo. Em 298 dC, Robert morreu – aparentemente de um acidente de caça, mas de fato por um meio-assassinato criado por Cersei para impedir a descoberta de seu incesto. O veículo que ela usou foi o primo de Tyrek e também escudeiro, Lancel Lannister.
Aparentemente, Tyrek não acompanhou o rei em sua última caçada, mas ele pode ter ouvido trechos da trama via Lancel. Seu status duplamente íntimo - como primo em primeiro grau e companheiro escudeiro (os dois parecem ter sido os únicos escudeiros de Robert no momento de sua morte) - dão a Tyrek maior potencial de conhecer os fatos por trás do assassinato de Robert - fatos que também serviriam para derrubar Linha real de Cersei.
Naquele momento, Tyrek era simplesmente um antigo escudeiro real, então alocado na corte de Joffrey sem qualquer objetivo maior. Os eventos, no entanto, logo perturbariam a existência relativamente pacífica de Tyrek e o empurrariam para uma tempestade de caos político - e ambição secreta.

Um Desaparecimento Estranho

Para acrescentar a todo o mistério que cerca seu desaparecimento, em A Fúria dos Reis, Tyrek é visto apenas uma vez:
Lorde Gyles tossia, enquanto o pobre primo Tyrek vestia sua capa de noivo de pele de esquilo e veludo. Desde seu casamento com a pequena Senhora Ermesande, três dias antes, os outros escudeiros tinham começado a chamá-lo de “Ama de Leite”, perguntando-lhe que tipo de cueiros sua noiva usara na noite de núpcias. (ACOK, Tyrion VI)
Longe de ser a noiva filha de um glamuroso cortesão que Tyrek esperava que sua posição de corte lhe desse - ou mesmo da donzela das Terras Ocidentais que ele poderia ter antecipado em circunstâncias normais - o "primo pobre" de Tyrion fora casado com Ermesande Hayford. Dinasticamente, a combinação foi agradável: a Casa Hayford era uma respeitável dinastia das Terras da Coroa, com pelo menos uma casa de cavaleiros juramentada. Sua atual dama, Ermesande, era a última de sua linhagem, o que significa que as terras e rendas de Hayford seriam graciosamente transferidas para os Lannisters.
Infelizmente para Tyrek, Ermesande também era um bebê. O novo lorde de Hayford teria que esperar até os vinte e poucos anos para contemplar a consumação de seu casamento. No entanto, se era pessoalmente humilhante ser casado com uma garota ainda não desmamada, Tyrek não tinha instância para reclamar. Ele, como todos os seus contatos Lannister, era um peão em um grande jogo de política dinástica e se casaria na forma que pudesse trazer maior vantagem à Casa Lannister.
Tyrek, no entanto, não viu sua noiva infantil amadurecer. Em 299 dC, Tyrion arranjou o casamento da prima de Tyrek, Myrcella, com o príncipe Trystane Martell, de Dorne. A corte fez um evento para acompanhar Myrcella até as docas para vê-la partir para Lançassolar, e Tyrek - como primo da princesa e também representante dos interesses de Lannister - juntou-se à família real, cortesãos, guardas reais e até o Alto Septão na procissão. Um homem na corte, no entanto, estava visivelmente ausente: o mestre dos sussurros, Varys.
A cidade estava em um clima nefasto. A Guerra dos Cinco Reis havia isolado a Capital dos tradicionais celeiros de Westeros. Com as Terras Fluviais em chamas e a Campinas firmemente apoiando de Renly Baratheon no ínico, Porto Real teve que confiar em Rosby e Stokeworth para trazer suprimentos, e as restrições resultaram em fome entre as classes mais pobres da cidade. O que o jovem rei Joffrey não possuía em charme e tato político, mais do que compensava em crueldade. Tyrion, sua Mão, foi responsabilizado pela má sorte após a morte de Robert, odiado por sua retaliação contra Janos Slynt e Pycelle e por seus seguidores mercenários e selvagens. Rumores sobre o incesto dos Lannister e a corrupção real em geral já haviam se espalhado pelas ruas; o ar saturado precisava apenas da faísca certa para explodir.
Quando explodiu, a fúria foi horrível de se ver. Sor Aron Santagar, o mestre de armas da Fortaleza Vermelha, foi espancado até a morte por quatro homens, enquanto Sor Preston Greenfield, da Guarda Real, foi retalhado e esfaqueado tão brutalmente que sua armadura branca ficou manchada de vermelho e marrom. O Alto Septão fora arrancado de sua liteira e despedaçado por membros da multidão, e a Senhora Lollys Stokeworth fora estuprada nas ruas por vários homens. Nove Mantos Dourado foram mortos pela multidão, enquanto mais 40 da Patrulha da Cidade foram feridos nos combates; o número de plebeus mortos não foi registrado, mas provavelmente foi muito maior.
Não foi registrado entre os mortos, porém, o jovem Tyrek Lannister. Presumivelmente, "Ama de Leite" estava na "longa comitiva de outros cortesãos" atrás da liteira do Alto Septão, formada no final da procissão real. Esse posicionamento explicaria por que foi Horas Redwyne, também naquele grupo, quem informou que Tyrek não havia retornado. Tyrion, assumindo o comando logo após o tumulto, ordenou a Jacelyn Bywater, seu novo Comandante da Patrulha da Cidade, que encontrasse seu primo desaparecido:
Tyrek continuava desaparecido, tal como a coroa de cristais do Alto Septão. Nove homens de manto dourado tinham sido mortos, e havia quarenta feridos. Ninguém se incomodara em contar quantos haviam morrido entre a multidão.
– Quero Tyrek, vivo ou morto – Tyrion disse secamente quando Bywater se calou. – Ele não passa de um garoto. Filho do meu falecido tio Tygett. O pai sempre foi bom para mim. (ACOK, Tyrion IX)
Com a confusão e o caos do tumulto, não surpreende que Tyrek Lannister tenha se perdido. Sua aparência óbvia de Lannister e sua associação com a família real pode ter tornado Tyrek um alvo fácil para os manifestantes. Se ele fosse tratado com tanta brutalidade quanto Sor Preston ou Sor Aron, seu corpo poderia nunca ter sido encontrado entre os muitos mortos.
No entanto, o que é insatisfatório nessa explicação simples é o foco que o desaparecimento de Tyrek é dado por vários livros, muito depois que os incêndios na Baixada das Pulgas foram extintos. Em três momentos distintos, Tyrek e o mistério de seu desaparecimento após o tumulto são expressamente mencionados, muito embora nenhum personagens presentes pareça ser capaz de determinar o destino do pobre escudeiro.
O primeiro momento ocorre durante A Tormenta de Espadas. Tyrion, tentando uma reunião com seu pai (a nova Mão), encontra Sor Addam Marbrand na escada. Um cavaleiro bastante talentoso e amigo de infância de Jaime Lannister, Addam havia sido nomeado o novo comandante da Patrulha da Cidade, mas sua primeira tarefa provou ser um fracasso:
– Você vem dos aposentos de meu pai? – perguntou.
– Venho. Temo não tê-lo deixado no melhor dos humores. Lorde Tywin acha que quatro mil e quatrocentos guardas são mais do que suficientes para encontrar um escudeiro perdido, mas seu primo Tyrek continua desaparecido.
Tyrek era filho do falecido tio Tygett, um rapaz de treze anos. Desaparecera no tumulto, não muito tempo depois de se casar com a Senhora Ermesande, um bebê de peito que calhava ser a última herdeira sobrevivente da Casa Hayford. E provavelmente a primeira noiva na história dos Sete Reinos a enviuvar antes de ser desmamada.
– Também não fui capaz de encontrá-lo – confessou Tyrion. (ASOS, Tyrion I)
Pode ou não ser verdade que Sor Addam enviou todos os quatro mil guardas da cidade à procura do jovem Tyrek, mas o tamanho de sua força-tarefa em potencial só fez com que o fracasso em encontrar essa relação Lannister fosse maior – e mais intrigante. Sor Addam é um comandante respeitado, mas ninguém na capital era capaz de revelar maiores informações sobre o paradeiro de Tyrek, ou mesmo mais detalhes sobre o que aconteceu com o escudeiro Lannister durante o tumulto - um fato tornado mais notável em face da autoridade emanada por Addam. Lorde Tywin Lannister manifestou sua intenção de encontrar seu sobrinho, porém nem mesmo a mágica de seu nome conseguiu extrair mais uma gota de informação daqueles que poderiam saber sobre Tyrek.
É verdade que, durante a rebelião de Robert, Jon Connington não conseguiu extrair informações do povo de Septo de Pedra: ele havia oferecido subornos e ameaçado com punições, mas as pessoas se recusavam a revelar onde Robert Baratheon estava escondido na cidade. No entanto, lorde Tywin tinha uma reputação muito mais pavorosa do que Lorde Jon.
]Tywin não tinha vergonha de anunciar sua brutal extinção dos Reynes e Tarbecks por seu desafio aos Lannisters; alguns dos portorrealenses podem até se lembrar do Saque no fim da rebelião de Robert, quando os homens de Tywin mataram crianças na rua e estupraram mulheres em suas casas. Se os portorrealenses mentissem agora e fossem flagrados na mentira mais tarde, a retribuição que Tywin traria sobre eles e seus vizinhos seria implacável.
Então, por que ninguém deu a menor dica sobre o que aconteceu com Tyrek? Não há rumor de que ele teria sido morto (embora Bronn considerasse essa como a opção mais provável); em vez disso, Tyrek parece ter simplesmente sumido.
Mais tarde, o próprio Tywin enfatizou seu desejo de encontrar o filho de seu irmão em uma reunião do pequeno conselho:
– Dragões e lulas-gigantes não me interessam, independentemente de quantas cabeças tenham – disse Lorde Tywin. – Seus informantes terão por acaso encontrado algum rastro do filho de meu irmão?
– Infelizmente, nosso bem-amado Tyrek desapareceu por completo, pobre e bravo rapaz. – Varys parecia perto de rebentar em lágrimas. (ASOS, Tyrion III)
Pode-se questionar por que Tywin procuraria informações de Varys. Se milhares de policiais não puderam extrair o paradeiro de Tyrek daqueles que testemunharam o caos do tumulto, a próxima fonte de informação era naturalmente Varys e sua extensa rede de espionagem. O mestre dos sussurros pode não ser tão onisciente quanto muitos acreditam que ele é, mas seu catálogo de informantes é vasto e suas habilidades na coleta de informações são bem afiadas e praticamente inigualáveis.
Os plebeus podem relutar em admitir a oficiais sob a autoridade de Lorde Tywin que viram Tyrek assassinado e seu corpo destruído ou despejado no Água Negra, mas declarações casuais feitas em ambientes mais informais podem ser facilmente captadas por um agente da Varys e entregues ao mestre de sussurros. Era assunto oficial da coroa desde imediatamente após o tumulto encontrar Tyrek Lannister; era, ostensivamente, a responsabilidade premente de Varys coletar qualquer informação sobre esse ponto.
No entanto, embora Varys ostensivamente não tenha recebido informações, sua conduta nessa cena deve ser analisada. Não foi a primeira vez que Varys exibiu teatralmente uma tristeza dramática diante de um Lannister. Em A Fúria dos Reis, Tyrion organizou a prisão de Janos Slynt e seu exílio na Muralha, muito embora Slynt tivesse se recusado a revelar quem o havia ordenado a perseguir os assassinatos do bebê Barra e sua mãe. Após a cena com Slynt, Tyrion teve a seguinte conversa com Varys:
– [...] Foi a minha irmã. Foi isso que o Ah... tão... leal Lorde Janos se recusou a dizer. Cersei enviou os homens de manto dourado àquele bordel.
Varys sufocou um riso nervoso. Então, ele sempre soubera.
– Não me havia contado essa parte – Tyrion disse, acusadoramente.
– A sua querida irmã – Varys respondeu, tão desgostoso que parecia perto das lágrimas. – É duro contar isso a um homem, senhor. Tive receio de como receberia a notícia. É capaz de me perdoar? (ACOK, Tyrion II)
Mais uma vez, Varys conhecia um segredo que a Mão Lannister não conhecia. Encurralado para revelar a verdade ou passar uma mentira plausível, Varys optou por lágrimas dramáticas para transmitir uma sensação de pesar real à situação em ambos os casos. Suas habilidades na pantomima não haviam desvanecido, apesar de seus anos fora da profissão: como um pantomimeiro perfeito, Varys estava utilizando uma distração em sua demonstração de tristeza para desviar as atenções do público das questões prementes reais apresentadas a ele.
O truque não funcionou em nenhum dos dois homens - Tyrion insistiu em maior transparência do mestre dos sussurros, e Tywin estava pronto para "expressar a sua óbvia insatisfação" antes de ser desviado por Kevan - mas o fato de Varys usar a mesma tática duas vezes, diante de público similar, pode sugerir que Varys está mais uma vez privando os Lannisters de um segredo e que ele sabe exatamente o que aconteceu com o jovem Tyrek.
A conversa de Marbrand com Tyrion, no entanto, não seria a última vez que o herdeiro de Cinzamarca comentaria o caso do desaparecimento de Tyrek. Ao partir da capital, Jaime Lannister levou seu amigo de infância consigo. Permanecendo como convidados em Hayford - o assento brevemente ocupado por Tyrek - Addam falou o seguinte sobre a situação:
– Eu mesmo liderei uma busca, por ordens de Lorde Tywin – interveio Addam Marbrand enquanto tirava as espinhas de seu peixe –, mas não descobri mais do que o Bywater antes de mim. O rapaz foi visto pela última vez a cavalo, quando a força da turba quebrou a formação de homens de manto dourado. Depois disso... Bem, sua montaria foi encontrada, mas o cavaleiro não. O mais provável é terem-no derrubado e matado. Mas, se foi assim, onde está o corpo? A multidão deixou os outros cadáveres no local, por que não o dele? (AFFC, Jaime III)
Addam Marbrand levanta um ponto importante. Os corpos de Santagar e Greenfield foram descobertos mais tarde - mutilados, quase a ponto de não serem reconhecidos, mas identificáveis ​​-, sendo que a multidão não faz nenhuma tentativa de descartar os dois, que eram obviamente funcionários da corte. Certamente, o castigo pelo assassinato de um Lannister, primo em primeiro grau do rei (assumindo que a multidão soubesse quem Tyrek era), seria terrível. No entanto, o assassinato alguém de nascimento nobre como Santagar, ou um cavaleiro da Guarda Real, provavelmente também levaria terríveis punições.
As multidões de tumultos estavam em um estado caótico, mais em busca de sangue do que em fazer cálculos frios sobre suas vítimas, e com Tyrek não teria sido diferente. Por que apenas o corpo de Tyrek seria descartado de maneira tão completa que não restava nenhum vestígio dele?
Lyle Crakehall, outro homem do oeste na companhia de Jaime, fez a seguinte observação:
– Ele teria sido mais valioso vivo – sugeriu Varrão Forte. – Qualquer Lannister traria um robusto resgate. (AFFC, Jaime III)
O pensamento, no entanto, foi rápida e efetivamente descartado por Marbrand:
– Sem dúvida – concordou Marbrand –, e no entanto nunca houve um pedido de resgate. O rapaz simplesmente desapareceu. (AFFC, Jaime III)
Mais uma vez, Marbrand foi direto ao cerne da questão. Bronn havia observado anteriormente a oferta de Varys de uma “bolsa gorda” pela devolução de Tyrek, e sem dúvida Marbrand também acreditava que o eunuco mestre de espionagem tornara pública a oferta. Havia muitas oportunidades para os portorrealenses ganharem dinheiro com o desaparecimento de Tyrek, mantendo-o como refém quando a revolta estourou ou, posteriormente, alegando conhecimento do destino de Tyrek (talvez colocando a culpa pelo assassinato em vizinhos detestados).
No entanto, não havia um pingo de informação que pudesse revelar o que aconteceu com o escudeiro Tyrek. Uma gorda bolsa Lannister raramente falhara em soltar línguas antes, mas mesmo assim os rumores do destino de Tyrek não puderam ser arrancados dos habitantes da Baixada das Pulgas.
No comentário de Marbrand, Jaime fez sua própria conclusão - que os portorrealenses, tendo matado Tyrek, jogaram seu corpo no rio por medo da ira de Tywin - mas isso é insatisfatório, mesmo para o próprio Jaime. Por um lado, Tywin não estava na capital na época do tumulto e não retornaria até a Batalha do Água Negra. Na verdade, os portorrealenses poderiam temer o retorno de Lorde Lannister, mas o corpo de Tyrek teria que ser destruído durante o tumulto (uma vez que Tyrion enviou uma equipe de busca para ele logo ao retornar à Fortaleza Vermelha), fazendo do medo de Tywin uma motivação improvável.
Aprofundando-se na questão, Jaime avaliou o que Tyrek poderia representar:
Mas, mais tarde, sozinho no quarto de torre que lhe fora oferecido para a noite, Jaime deu por si com dúvidas. Tyrek servira o Rei Robert como escudeiro, ao lado de Lancel. O conhecimento podia ser mais valioso do que o ouro, mais mortífero do que um punhal. Foi em Varys que pensou então, sorrindo e cheirando a lavanda. O eunuco tinha agentes e informantes por toda a cidade. Seria coisa simples arranjar as coisas de forma que Tyrek fosse capturado durante a confusão... desde que soubesse de antemão que era provável que a turba entrasse em tumulto. E Varys sabia de tudo, ou pelo menos era isso que gostava de nos fazer acreditar. Mas não deu nenhum aviso a Cersei sobre esse tumulto. Nem desceu aos navios para se despedir de Myrcella. (AFFC, Jaime III)
Pode parecer óbvio demais que o destino de Tyrek nos seja transmitido através dos pensamentos internos de Jaime. Jaime certamente tem todos os fatos sobre o Tyrek aqui, mas o importante a se notar é que Jaime falha em juntar as peças. Ele sabe que Tyrek era um escudeiro, sabe que Lancel também era escudeiro, sabe que Lancel efetuou o plano de assassinato de Cersei, sabe que Varys poderia ter arrebatado Tyrek - mas depois para de pensar no assunto.
O monólogo interno de Jaime pode ser comparado à chance de Arya ouvir a trama entre Varys e Illyrio nos porões da Fortaleza Vermelha em A Guerra dos Tronos. De certa forma, é muito coincidente e direto - os leitores conseguem obter um ponto de vista dos dois conspiradores astutos discutindo abertamente seus planos acerca dos Targaryens exilados - mas porque Arya é apenas uma criança, não uma ladina, seu relatório da conversa é confusa e gentilmente descartada por Eddard. Jaime pode adivinhar que Tyrek pode ser útil, mas o modo como Varys poderia usá-lo está além do desejo ou habilidade analíticos de Jaime.
A evidência não resulta em uma conclusão simples. Todos os membros desaparecidos da comitiva real haviam sido devolvidos à Fortaleza Vermelha ou tiveram seus corpos encontrados - exceto Tyrek. Uma busca realizada após o tumulto não conseguiu encontrar mais do que o palafrém de Tyrek. Uma enorme força-tarefa da Patrulha da Cidade não fez nada para dissipar o mistério em torno do desaparecimento do garoto. Varys, o especialista em espionagem, parece ter deliberadamente ocultado informações que recebeu sobre Tyrek. Para onde o garoto poderia ter ido?
Pode ser que Tyrek não tenha sido assassinado nas ruas da Baixada das Pulgas – mas que ele esteja, de fato, vivo e escondido, sob os cuidados de Varys.

O Leão na teia da Aranha

O fato de Varys ter usado o motim em Porto Real para seqüestrar o jovem Tyrek parece uma conclusão possível, até mesmo provável. É improvável que Varys tenha planejado todo o tumulto em Porto Real - as pessoas estavam com fome e raiva o suficiente para não necessitarem de preparação -, mas uma instigação sutil poderia levar os portorrealenses a se aglomerarem nos pontos desejados, dentro dos quais Varys ou seu agente na multidão poderiam arrebatar Tyrek e o colocar sob custódia da Aranha.
Se ele era de fato o mentor por trás do tumulto, Varys havia improvisado uma hábil pantomima. A mulher com a criança morta que interrompeu a procissão real fora colocada na curva de uma rua morro acima; a comitiva real não apenas se moveria devagar, mas o fim da comitiva ficaria fora de vista. É provável que a mulher e o homem que jogaram sujeira em Joffrey tenham sido plantados, colocada em posição de detonar o conhecido pavio curto de Joffrey.
A mulher que se encaixa no gosto de Varys pelo teatral; e o atirador de estrume também parece obra dele, uma vez que a sujeira foi jogada de cima de um telhado. Previsivelmente, Joffrey enviou seu "cão" para a multidão para mutilar as pessoas obedientemente e assim, como era de se eseperar, a multidão de pessoas famintas e espumando tomou a brutalidade de Sandor Clegane como incentivo para retaliar. Plantando cuidadosamente seus agentes, Varys poderia garantir que o tumulto começasse na frente do desfile real, permitindo que o rei de repente corresse perigo a fim de distrair o sequestro de Tyrek na parte de trás da procissão e antes da curva do Caminho Lamacento.
O que Varys iria querer com Tyrek? Primeiro, Tyrek tem uma forte direito de sangue a Rochedo Casterly. Embora esteja agora distante do lugar em que nasceu, Tyrek saltou algumas posições desde então. Lorde Tywin está morto, Jaime inelegível por conta de seu manto branco e Tyrion, um regicida condenado e um traidor, está há dois continentes de distância de seu assento ancestral. Cersei, a Dama de Casterly Rock, está esperando para ser julgada por incesto, adultério e regicídio; ela provavelmente terá sucesso no julgamento, mas seu domínio sobre a coroa permanece tênue. Depois de Cersei e seus filhos viria Kevan Lannister, mas Sor Kevan foi recentemente assassinado - por ninguém menos que o próprio Varys. O filho de Kevan, Lancel, se tornou religioso após a Batalha do Água Negra, renunciou ao assento em Darry para se juntar aos Filhos do Guerreiro, ao passo que Willem foi assassinado por Rickard Karstark; seu irmão gêmeo Martyn e o pequeno Janei permanecem vivos, embora o paradeiro deles seja desconhecido. O próximo reclamante seria o próprio Tyrek.
Varys precisa de um herdeiro Lannister, para estabelecer uma nova ordem política em Westeros. Por quase duas décadas, Varys e Illyrio criaram o jovem Aegon como o príncipe ideal, futuro Senhor dos Sete Reinos, um salvador glorioso para resgatar o reino do caos. A invasão estrangeira, no entanto, pode ser apenas uma parte dessa nova conquista de Aegon: qualquer conquistador bem-sucedido (especialmente um sem dragões) exige o apoio da nobreza local para não apenas derrotar seus inimigos, mas estabelecer um regime viável para o futuro.
Dorne parece preparado para apoiar o principezinho “Targaryen”: posando como filho de Elia Martell, Aegon parece pronto para incitar muitos dorneses, já inquietos, a agir contra a odiada dinastia Lannister. O próximo e ousado investimento de Aegon em Porto Real garantirá sua posição como conquistador das Terras da Tempestade, e pelo menos dois poderosos senhores da Cmapina - e um número incerto de "amigos" - parecem prontos para se juntar à sua causa.
Para o resto dos Sete Reinos, no entanto, Varys precisará formular um plano de ataque diplomático. Tyrek, um Lannister do Rochedo, um legítimo Lorde leão (assim que algumas peças forem arrancadas do tabuleiro), pode servir como um fantoche útil para ganhar as Terras Ocidentais para o futuro Aegon VI.
É claro que, para sentar o jovem Aegon no Trono dos Reis Dragão, Varys precisa derrubar o rei-criança Tommen (e se desfazer da princesa Myrcella). A hoste que o príncipe de Varys estava liderando nas Terras da Tempestade será um forte punho de aço para defender seu ponto de vista, mas Varys também precisa da luva de seda de embasamento legal para arrancar a coroa de Tommen de seus cachos dourados.
A tática mais óbvia (e verdadeira) seria provar que Tommen e Myrcella eram bastardos nascidos do incesto, sem qualquer pretensão ao Trono de Ferro, assim como qualquer outro westerosi. Sua bastardia já era um boato comum em todo o reino, graças a Stannis, mas para encerrar a discussão, Varys precisava de alguém que pudesse oferecer provas.
Tyrek esteve com o rei, possivelmente o acompanhou a bordéis e viu seus bastardos de cabelos pretos como Barra. Além disso, Tyrek poderia testemunhar o papel que Lancel desempenhou ao provocar a morte de Robert, minando ainda mais a posição de Cersei. Cuidadosamente treinado por Varys, Tyrek poderia prestar testemunho que arrebataria a herança de seus primos, abrindo caminho para Aegon restabelecer a dinastia Targaryen.
Então, uma vez que Tommen e Myrcella fossem denunciados como bastardos, Tyrek permanece como a escolha ideal para ser nomeado Senhor de Casterly Rock por seu agradecido novo rei Aegon VI (Martyn e Janei apresentariam um desafio dinástico, mas considerando que Varys não tinha escrúpulos em assassinar o pai deles [Kevan], parece improvável que ele permita que esses pretendentes rivais também vivam). Desconectado dos escândalos dos Lannister em Porto Real, Tyrek é um candidato atraente para governar o oeste e se tornar parte da nova ordem westerosi de Aegon.

Conclusão

Em 1999, George RR Martin ofereceu esta breve e tentadora opinião sobre Tyrek Lannister:
RMBoye: Pergunta simples, de verdade - será que vamos descobrir o que aconteceu com o "Ama de Leite", Tyrek?
George_RR_Martin: Sim, você vai. Tento não deixar muitas pontas soltas. Mas às vezes é preciso aguardar.
Talvez os comentários dele devam ser feitos com mais do que um grão de sal; afinal, na mesma entrevista, ele insistiu que o crescimento dos livros pararia no sexto. Talvez já tenhamos visto Tyrek, no jovem bonito, com a bolsa de dragões de ouro, que Arya nota ter morrido na Casa de Preto e Branco. Talvez a Navalha de Occam esteja correta aqui: que Tyrek foi morto no tumulto sangrento e que os manifestantes jogaram seu corpo no rio para evitar o castigo severo que os Lannisters e a coroa provavelmente lhes causariam.
No entanto, o assassinato por um plebeu desconhecido, ou uma morte inexplicável na catedral de um culto de assassinos, parece uma revelação ruim para a qual o autor precisaria aconselhar termos paciência. De fato, parece mais provável que Tyrek esteja de fato vivo e que Varys tenha os meios, motivos e oportunidades para arrancá-lo da capital e segurá-lo para seus próprios usos.
Somente Os Ventos do Inverno servirá para mostrar se Tyrek retornará com o suposto Aegon VI e ocupará seu lugar em Rochedo Casterly. No entanto, o mistério absoluto em torno do desaparecimento de Tyrek continua alimentando especulações, e os leitores podem tentar prever como é que esse escudeiro de menor importância dos Lannister retornará à narrativa de modo grandioso.
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2019.04.28 20:26 fidjudisomada Primeira Liga 2018/9, #31: SC Braga 1-4 SL Benfica

ICEBERG BENFICA

Nos momentos-chave do desafio da 31.ª jornada da Liga NOS, o Benfica foi um verdadeiro iceberg. Perante o Braga, virou de 1-0 para 1-4 com uma segunda parte fulminante, ganhou e fortaleceu a sua posição de comandante, agora com dois pontos de vantagem. Faltam três finais!
O equilíbrio de forças foi evidente na etapa inicial do jogo, mas coube ao Benfica criar o primeiro momento de agitação em consequência de uma arrancada de Rafa pelo corredor direito, com o camisola 27 a optar pelo remate aos 3'.
À falta de oportunidades claras, as equipas tentavam aproveitar espaços à entrada da área para armar pontapés de meia distância. João Félix (14') e Rafa (21'), pelas águias, Paulinho (8') e Fransérgio (27'), pelos arsenalistas, foram intérpretes de execuções ameaçadoras, mas nenhum dos tiros foi direto à baliza.
O lance que originou a definição do resultado no primeiro tempo aconteceu aos 32': Fransérgio rompeu pelo corredor central, conseguiu entrar na área do Benfica e depois, no despique com Rúben Dias, caiu no relvado, com o árbitro Tiago Martins a considerar faltosa a intervenção do central dos encarnados. Na conversão do pontapé de penálti, Wilson Eduardo chutou para a esquerda, Odysseas estirou-se, mas a bola rolou para dentro da baliza (1-0).
Pronta reação do Benfica e várias aproximações à grande área bracarense. Após um tiro de Seferovic contra a muralha arsenalista (40'), André Almeida recebeu um passe de Rafa (44') e disparou de fora da área com muito perigo, fazendo a bola passar perto do poste esquerdo.
Para a segunda parte estava guardada a melhor das respostas, com um Benfica poderoso, imponente, pressionante e arrasador, do início ao fim. Empurrando o Braga para a sua zona defensiva, as águias acertaram no poste esquerdo aos 52' num remate de João Félix, após toque curto de Rafa na área, no aproveitamento de um passe de Samaris por cima da cortina arsenalista.
O ferro adiou o inevitável: o primeiro golo do Benfica (1-1) foi apontado por Pizzi na cobrança de um pontapé de penálti (59') a castigar falta de Esgaio sobre João Félix (56').
Foi o 11.º golo do camisola 21, que, após braço de Bruno Viana na bola (64'), voltaria à marca dos 11 metros aos 66'. Imperturbável, enganou novamente o guarda-redes Tiago Sá (1-2) e assinou o seu 12.º golo neste Campeonato.
Os encarnados mandavam no jogo, não levantavam o pé, queriam mais... e conseguiram. Aos 69', no seguimento de um canto batido por Pizzi no lado esquerdo (18.ª assistência na Liga NOS 2018/19), Rúben Dias voou no coração da área e cabeceou para o 1-3.
O central anotou o seu 3.º golo nesta edição do Campeonato, o 4.º na época, e igualou o registo global de 2017/18, enquanto Pizzi disparou para a liderança do ranking de jogador mais influente na prova, com participação direta em 30 golos.
O Benfica não autorizava a reação do Braga e, com total controlo, esteve sempre mais perto de alargar o seu pecúlio na partida. João Félix e Rafa, no mesmo lance (82'), viram as suas tentativas ser travadas pelo guarda-redes Tiago Sá.
E o 1-4 surgiu mesmo, aos 90': Seferovic isolou-se, rematou e Tiago Sá defendeu; Rafa, na insistência, roubou a bola a Pablo, serpenteou por entre uma série de adversários e chutou para as redes.
Os encarnados chegaram aos 91 golos no Campeonato, sendo a primeira vez que ultrapassam as nove dezenas após 31 jornadas, segundo a plataforma Playmakerstats. Alargando a análise, o Benfica já tem 128 golos faturados em 2018/19, algo que não conseguia há 54 anos (desde 1964/65), segundo a mesma fonte.
No minicampeonato dos quatro grandes, o Benfica foi o melhor: 16 pontos em 18 possíveis nos duelos com FC Porto, Sporting e Braga.

BRUNO LAGE: “ATITUDE DE EQUIPA GRANDE, QUE É O QUE SOMOS”

Bruno Lage destacou a “boa reação” da equipa do Benfica frente ao SC Braga (1-4), num jogo onde até entrou a perder. O treinador encarnado mostrou-se naturalmente “satisfeito com os três pontos”, alertando, no entanto, para a dificuldade da reta final do Campeonato, onde o Benfica é agora líder isolado.
O segredo foi ter melhor circulação
“Trata-se de uma vitória muito importante para nós porque estávamos a jogar contra um adversário muito competente, que nos dificultou muito na primeira parte. Acabámos por ter uma boa de reação àquilo que nos aconteceu, o golo do SC Braga. O jogo começou, de alguma forma, equilibrado. O SC Braga teve duas ou três saídas, onde, numa delas, surgiu o golo. A segunda parte foi de enorme qualidade e atitude, de equipa grande, que é o que nós somos. Só assim poderíamos ultrapassar este adversário, uma equipa fantástica, orientada por um grande treinador, com uma dinâmica muito interessante e muito difícil de bater. Nós, na segunda parte, tínhamos de ser mais pressionantes, mais acutilantes e fazer com que a circulação de bola de um corredor ao outro fosse mais rápida e mais eficaz para procurar os espaços mais perto da baliza. Essencialmente o segredo foi termos uma melhor circulação, principalmente de um corredor ao outro. Estávamos a circular de forma lenta, o que permitia ao adversário controlar facilmente as nossas iniciativas. Foi o que fizemos e estamos muito satisfeitos com os três pontos. Uma segunda parte muito forte da nossa parte a fazer justiça ao resultado.”
Liderança isolada traz conforto?
“Não. Vejam aquilo que nos aconteceu com o Belenenses ou aquilo que aconteceu ao FC Porto com o Rio Ave. Ambas as equipas a vencer por duas bolas e, de repente, acontecem dois golos dos adversários. Aquilo que temos vindo a fazer é uma caminhada muito sólida e é com esse objetivo que temos de continuar: de final em final, apresentando o nosso jogo como fizemos aqui, principalmente na segunda parte, para conseguir os três pontos. O Portimonense é mais uma final. Estamos numa altura muito importante da época. As equipas precisam de pontos para conquistar títulos, para ter acesso à Liga Europa, para não descer de divisão. É uma reta final muito difícil e nós temos de olhar para aquilo que controlamos, as nossas ambições nos jogos.”
Efeito Bruno Lage?
“Aquilo que disse há uns meses é aquilo que reafirmo: só é possível fazer isto com este grupo de trabalho empenhado e motivado. Têm feito de mim treinador e está a ser uma experiência e uma aventura fantásticas. Estamos felizes, mas, no próximo sábado, já temos de marcar presença perante os nossos adeptos e voltar a fazer uma grande exibição para conseguir os três pontos. É nisso que temos de nos focar e é isso que digo aos jogadores: deixar o aspeto emocional de lado – que se pode ou não carregar nesta altura da época – e concentrar-nos essencialmente naquilo que temos de fazer, que é o nosso jogo. Temos de saber o que temos de fazer em termos ofensivos e defensivos, conhecer muito bem o adversário, ir a jogo e estarmos concentrados apenas nisso. Tem resultado.”
Número de golos marcados dá confiança para o que aí vem?
“O que nos tem dado mais confiança é a forma como trabalhamos. Até tenho pena que não haja mais momentos em que os treinos sejam visíveis, quer aos jornalistas quer aos adeptos. A forma como treinamos, empenhados e dedicados é que me deixa confiante. Somos uma equipa que cria oportunidades de golo e vários jogadores com enorme facilidade na finalização, mas, repito: quer a qualidade e a dinâmica do treino, quer a atitude e o empenho que os jogadores colocam diariamente no trabalho é que me dão confiança para jogar de final em final.”
Mensagem aos adeptos
“Manter a calma e o equilíbrio. Estarmos serenos, é isso que digo aos jogadores. Fizemos mais uma final, temos mais uma final muito importante contra o Portimonense com esse equilíbrio e calma. Continuem sempre a apoiar-nos. Hoje foi fantástico. O percurso que fizemos, quer de Lisboa ao Porto, quer hoje do Porto a Braga, na estrada, à chegada ao hotel, à chegada ao estádio, no jogo… Foi fantástico! Da nossa parte, vamos estar sempre muito concentrados e empenhados em jogar sempre como jogámos hoje para vencer os nossos jogos.”
Análise às grandes penalidades
“Não comento arbitragens. Estamos a passar por um momento muito difícil no futebol português e tudo aquilo que temos de fazer é dar credibilidade em todos os sectores: treinadores, jogadores, árbitros, videoárbitro, direções. Vou voltar a tocar no mesmo assunto sempre que me fizerem esta pergunta. Eu tenho receio que alguns adeptos de algumas equipas comecem a afastar-se do futebol e que essas equipas deixem de existir, como já acontece em alguns casos. Temos cada vez menos gente no futebol, temos de fazer disto a nossa indústria, temos de o defender.”

Coisas e Loisas

  • Há sete anos e meio que o SC Braga não abria o marcador frente ao Benfica na Liga Portuguesa. Em Novembro de 2011 [E 1-1], Lima também tinha aberto o marcador de grande penalidade aos 45 minutos;
  • É a primeira vez nesta temporada que o Benfica, a jogar fora, termina uma primeira parte sem remates à baliza na Liga. Sem remates à baliza na Liga NOS 18/19 (1.ª parte): SLB vs Braga [F]; SLB vs Belenenses [C] 2-2; SLB vs FC Porto [C] 1-0;
  • Pizzi passou a ser o jogador com mais influência na Liga NOS 18/19, com 12 golos e 18 assistências. Esteve diretamente ligado em 30 dos 90 golos do Benfica (33%). Foi a primeira vez que o médio fez dois golos de grande penalidade num só jogo;
  • Rúben Dias igualou a sua temporada com mais golos (4); foi o 8.º golo do central encarnado pelo clube, o 7.º de cabeça. O outro golo foi apontado com o pé esquerdo frente ao Desp. Aves na Luz;
  • Igualado o máximo de penáltis num jogo do Benfica (3). É a 8.ª vez na história do clube. Não havia três grandes penalidades num só jogo dos encarnados (1-2) desde a época 2012/13 no empate 2-2 das águias em Coimbra;
  • As águias não tinham dois golos de grande penalidade num só jogo na mesma época (PAOK - Salvio e Braga - Pizzi), desde a temporada 2015/16 (duas vezes Jonas);
  • Rafa Silva chegou aos 17 golos (a sua melhor época de sempre) e marcou pela primeira vez à sua antiga equipa após quatro encontros. Rafa Silva fez dois remates à baliza (praticamente na mesma jogada) aos 90 minutos;
  • Benfica 10-3 SC Braga em 2018/19. Oito golos dos encarnados foram apontados na 2.ª parte. Não havia uma diferença de 7+ golos nos dois jogos da Liga entre as duas equipas desde a época 1983/84 (8-1);
  • Há 54 anos que o Benfica não marcava tantos golos (128) numa só temporada [Bruno Lage]. Em 1964/65, os encarnados foram campeões nacionais e chegaram à final da Taça dos Campeões Europeus, sob o comando do romeno Elek Schwartz;
  • Há 3 épocas que o Benfica não chegava às 25 vitórias em 31 jornadas na Liga Portuguesa (2015/16, 26 triunfos). Benfica fez pela primeira vez mais de 90 golos após 31 jornadas no campeonato, uma média de 2,93 golos por jogo;
  • Há 43 anos que o Benfica não marcava tantos golos (91) numa temporada na Liga Portuguesa. Épocas do Benfica com 91+ golos na Liga: 2018/19 - 91 golos; 1975/76 - 94 golos; 1972/73 - 101 golos; 1963/64 - 103 golos; 1960/61 - 92 golos; 1946/47 - 99 golos;
  • Bruno Lage completou praticamente uma volta (16 jogos, 15V 1E) na Liga NOS 2018/19, perdeu apenas 2 pontos [E 2-2 Belenenses, na Luz]. Bruno Lage tem a maior % de vitórias dos encarnados na Liga Portuguesa (94) mais 11% do que Jimmy Hagan;
  • Bruno Lage pegou na equipa a 6 de Janeiro 2019 (16.ª jornada). No 3.º lugar, tinha 7 pontos de desvantagem para FC Porto e 1 ponto para o SC Braga. Com Rui Rui Vitória: 10-2-3 Golos 30-16; Com Bruno Lage: 15-1-0 Golos 61-11.

Multimédia

Eleição do MVP

Talking Points

Preparámos uma lista de temas para conversas sobre este jogo, mas estejam à vontade para passar por cima dela, ou pegar num ou alguns, e apresentar as tuas observações e expressar opiniões:
  1. O resultado foi justo? Na tua opinião, o que faltou à equipa para alcançar um resultado ou exibição melhor?
  2. Está satisfeito com a resposta da equipa hoje? Qual foi o aspeto do jogo que mais te impressionou?
  3. Com o benefício da visão a posteriori, que alterações farias ao 11 inicial?
  4. Em retrospetiva, o que farias diferente ao longo do jogo? Como avalia os critérios de substituição? Trouxeram algo diferente ao jogo?
  5. Qual foi o jogador que mais se destacou com a camisola do SL Benfica? Nessa nota, quem foi a maior deceção?
  6. Quais são os aspetos positivos que o SL Benfica pode tirar deste jogo?
  7. Enfrentaremos o Portimonense SC na próxima partida, no Estádio da Luz, em jogo a contar para a 32.ª rodada da Primeira Liga 2018/9. Quais as perspetivas?

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2019.01.18 02:19 jogaforasasuke Crush, amigo, depressão

Entrei na faculdade em 2015. Ele, 'João', foi a primeira pessoa com quem troquei palavras. Eu nunca me tinha me relacionado com garotas e sempre fui muito mais próximo de amigos. Tive pouquíssimas amigas.
Ele lembrava um pouco um amigo do Ensino Médio. Em primeiro momento eu pensei que ele era bem fofo, mas depois deixei isso pra lá. Viramos amigos. Eu sempre quis ser mais próximo dele, mas até então, meus sentimentos em relação a ele e a mim mesmo eram confusos.
Por eu ser um pouco mais velho achei que sempre haveria um choque de gerações mesmo que eu me resolvesse e mesmo que ele sentisse da mesma forma que eu.
Quando eu percebi que tinha ciúmes dele eu simplesmente passei a dar uma de frio. Sempre me escondi atrás do adulto que tem um emprego e não tem tempo pra se divertir. Sempre usei a fachada de respeitar o espaço dos outros quando na verdade só não queria que ele percebesse meus sentimentos.
Durante uma época ele se afastou de todo mundo. Suspeitei que era proposital, mas como ele fazia iniciação científica pensei que ele tinha arranjado outro grupo de amigos e simplesmente estava ocupado com outras coisas.
Recentemente esse assunto por acaso surgiu e ele perguntou se a gente tinha percebido que teve essa época que ele se afastou. Ele não disse o motivo. Mais uma vez eu banquei o "maduro" e disse: "Achei que você estava ocupado com outras coisas." A verdade é que eu senti muita falta dele naquela época.
Esses sentimentos foram crescendo até que começaram a ficar mais fortes. Isso foi por volta de setembro do ano passado. Eu não conseguia ficar um segundo do meu dia sem pensar nele.
Algumas brincadeiras foram surgindo, e minha cabeça carente já não sabia separar o que era brincadeira e o que poderia ser sério. Amigos são babacas.
Um certo dia não aguentava mais guardar isso comigo, e mesmo sabendo que ele se declara hétero, uma esperança de que eu pudesse destruir aquele sentimento que eu não queria, por não me aceitar, fez com que eu tomasse a atitude mais covarde possível.
Eu mandei mensagens no Whatsapp dizendo o que sentia e que iria me afastar dele, pois não esperava reciprocidade dele. Mentira, esperava sim, mesmo sabendo que seria muito improvável. A reação dele foi de descrença e depois de silêncio. Ele se negou a acreditar em qualquer coisa, até porque eu como o idiota que sou nunca tinha demonstrado nada. Pelo contrário. Me escondi atrás de uma fachada que não sou eu.
Depois eu contei isso para um amigo em comum, 'José', atrás de algum conforto, mas ele não acreditou. Eu disse que "Okay, depois a gente conversa melhor."
Fui tomando uma atitude errada atrás da outra. Tentando reprimir meus sentimentos e criar o ambiente perfeito pra nenhuma possibilidade se concretizar. (Essa é a minha leitura agora. Na hora eu só achei que devia tirar aquilo do meu peito.)
No outro dia, encontrei com José. Eu falei que a história era verdade. Ele não acreditou. Eu falei "Okay. Não tem contexto esses anos todos pra você acreditar. Eu te entendo." Ele disse, "Ninguém consegue fingir tanto tempo. As pessoas acabam 'dando mole'." Eu disse que ele estava lendo muita fanfic e iludido por estereótipos. Ele continuou explicando porque não acreditava. Eu falei que não ia tentar convencê-lo de nada. José me disse que João disse a ele que eu tinha dito que gostava de José.
João tentou inventar uma história para que José achasse que eu estava sacaneando os dois. Eu sempre fui babaca, então eu entendo porque José acreditou que essa história poderia ser razoável.
No final, sentamos eu e José num banco e eu comecei a falar porque achava que tinha me apaixonado por João. Disse que tinha tentando racionalizar tudo e comecei a falar várias coisas, até que não aguentei e comecei a chorar.
Ninguém na faculdade tinha me visto chorar até aquele dia. José ficou sem palavras, parado, me ouvindo. Quando teve a chance de falar, pediu desculpas várias vezes por não ter sido um bom amigo. Por eu ter algo importante pra falar e ele não ter acreditado. Falou que estaria lá pra me apoiar e tudo, me confortou.
O tempo passou, e eu pensei que tudo estava legal. Voltamos a nos falar aos poucos e o climão foi passando entre uma conversa e outra. Voltamos nós três a ir a shows de bandas que curtimos.
Depois disso eu mudei muito a minha forma de me ver e passei a me aceitar. Só José sabe dessa história. Até hoje eu não sei se João me levou a sério.
Eu achei que poderia continuar sendo amigo, mas machuca demais ter escondido um amor por mais de 3 anos. Eu não consigo esquecer. Eu tento não ir pros mesmos lugares que ele tá. Machuca estar perto.
Eu já não sei mais se esse aperto foi causado por isso, ou se eu tenho problemas e to usando isso como catalizador.
Eu ainda penso que faria tudo por ele. Eu queria esquecer, mas não consigo e isso doi. Eu não sei como conseguir closure ou se isso é possível. Eu nunca tinha me apaixonado antes.
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2018.09.07 06:31 macsleao Confusão com um grupo de pessoas agitadas, fiquei sendo eu o errado, segundo a polícia.

Olá,

Sou morador de Coimbra e hoje aconteceu-me o sucedido. Fui sozinho ao cinema assistir um filme de terror ao Fórum, só por que sim, uma vez lá, já depois de o filme estar a correr a uns bons 15 minutos, um grupo de raparigas, que suponho tenham entre os 12-17 anos, acompanhadas da mãe e mais alguns adultos chegaram, eram bem barulhentos e falavam como se não houvesse mais ninguém na sala além deles, a sala estava cheia. Durante o filme, precisei, ir duas vezes reclamar para o gerente, sendo que, no clímax do filme, as raparigas (novas) estavam a falar muito alto, e a mandar calar as outras pessoas que as mandavam calar...
Tendo o filme acabado, esta "manada" de gente me cercou e começou a proferir insultos a minha pessoa e a minha nacionalidade (Brasileira), sendo que o homem mais velho tentou me intimidar, chegando mais perto de mim e me olhando com cara de cachorro sem dono, não me intimidei e, como estavam a me chingar, resolvi sacar o telefone e começar a gravar tais injúrias, não tive tempo para tal, o homem que tentou me intimidar antes me agarrou pelos braços e começou a me arrastar, enquanto a mulher mais velha, mãe de alguma das raparigas, me rasgou o casaco, e o senhor que me estava a segurar me estava a empurrar e a apertar meus pulsos, me exaltei e fiz de tudo para que ele me soltasse, no entanto, em momento nenhum o agredi, neste tempo todo, a mulher mais velha esteve a tentar me bater e a tomar o telefone da minha mão.
Uma vez que os seguranças chegaram para me separar, me seguraram pelos braços e me escoltaram para um local seguro, neste meio tempo, o homem "intimidador" me acertou um soco no lábio. As mulheres mais velhas deste grupo começaram a dizer que sou pedófilo por estar a gravar um vídeo de meninas menores (Não gravei vídeo delas, nenhum rosto apareceu, irei explicar este ponto mais tarde).
A Polícia foi chamada, e neste meio tempo, estive a relatar o acontecido a um amigo pelo WhatsApp. Atenção a um fato, pois vou voltar nele mais tarde: Quando a polícia chegou (6-7 agentes), tirei um foto orientada para o chão, que pegou apenas parte das botas de dois deles e mandei ao WhatsApp para o meu amigo dizendo "A polícia chegou".
Nos identificamos, eu, o agressor e a senhora que me rasgou o casaco.
Decidi por livre e espontânea vontade e iniciativa entregar o meu celular ao policial, com os vídeos, e permiti a ele olhar o meu messenger e WhatsApp para averiguar as acusações das senhoras de que eu estava a produzir conteúdo de pedofilia.
E agora começa a parte mais interessante: No vídeo, não aparece o rosto de ninguém, tudo o que filmei foi um vídeo de menos de um minuto, enquanto o homem me estava a segurar os pulsos, e apareceu o corpo de uma das raparigas, que estava, por sinal, bem a vista de todos.
O policial começou a me dar uma dura, na frente de todos, dizendo que eu não poderia fazer isto, que eu estava errado, com comentários do seguinte calibre "mas que caralho você está fazendo", falando alto comigo, como se eu estivesse errado. Quando ele viu a foto que mandei da bota dos policiais, ele olhou pra mim e disse "mas que caralho é isso, estás a pensar o quê, estás a se esticar", a falar num tom extremamente agressivo para mim, eu me defendi, disse que estava apenas a tentar comprovar os insultos que sofri, que não gravei nem publiquei a imagem de ninguém (a imagem da rapariga que apareceu no vídeo não incluía o rosto), que a foto que tirei foi das botas do agente apenas, no entanto, o agente que estava a falar comigo estava convencido a me dar uma dura e a me fazer sentir como uma péssima pessoa, um pedófilo que grava vídeos de raparigas pelo fórum.
O pior aconteceu quando, numa das minhas argumentações com o agente que me estava a repreender (em excesso, penso eu), um dos agentes disse "aqui o que vale são as leis de Portugal, aqui não é o Brasil" e "Volta para o seu país". Ora, fiquei pasmo ao ver que, um agente, na sua autoridade como representante do Estado Português, profira esse tipo de comentário xenófobo no exercício de sua função. Ao ver que eu não iria apenas ficar ouvindo falar e aceitar em mim a imagem que quisessem pintar de mim, o policial que me estava a repreender diminuiu o tom de discurso, mas continuou a falar alto (o que ele diz que é voz grossa, talvez em contrapartida ao meu tom de voz mais suave).
É de ressaltar que, dos 6-7 policiais que ali estavam, tive problemas com dois, os outros ficaram quietos ou apenas tentaram apoiar os outros policiais. Como conheço um dos policiais devido a uma ocorrência em que eu e outros vizinhos pedimos para que fossem retirados alguns drogados que estavam a se injetar em local publico, onde passam crianças, pedi boleia a estes para a baixa, pelo que o policial que me repreendeu insinuou que, já que eu "tenho" (dinheiro?), que chame táxi, papá ou o que fosse. Não tenho dinheiro, nem papá, trabalhei e estudei muito para fazer dois cursos superiores, passei por muitos problemas e, mesmo que tivesse dinheiro e papá, isso não deveria ser problema para ninguém.

Enfim, gostaria de perguntar a opinião sincera de pessoas sensatas quanto ao ocorrido, estou errado? Agi mal? Fui injustiçado? Os policiais agiram bem? E os comentários xenófobos, estão bem? Pode isso? O vídeo constitui crime? Devo pedir desculpas? Devem pedir desculpas a mim?

Gostaria de obter todas as impressões possíveis.

Muito obrigado pela paciência,
MacSLeao

PS: Me sinto injuriado e caluniado por ter sido feita a insinuação, por parte de um dos policiais de que, como o corpo da rapariga aparece no vídeo, mesmo sem identificação, isso faz de mim um pedófilo.
PS2: Estou em Portugal a 8 anos, apesar de ter demorado a me enquadrar, fiz aqui amigos para a vida, amo Portugal.

Edit1 - Correção do título "Confusão com um grupo de pessoas agitadas, fiquei sendo eu o errado, segundo o policial."


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2018.06.25 13:39 ForcadoUALG Opinião de um sportinguista - cansado, mas sportinguista

Ponto introdutório e peço desde já desculpa pela wall of text: Fui apoiante de Bruno de Carvalho em 2011, em 2013, em 2017. Vi-o sempre como a verdadeira alternativa para lutar contra o sistema instaurado no Sporting por José Roquette, na década de 90, e que permitiu quase 2 décadas de um clube mergulhado num grave problema de personalidade, de finanças e de competitividade que se estende a todas as modalidades, e aos próprios adeptos do clube. O dia 24 de Março de 2013 continuará para sempre na minha memória como o dia em que rompemos com a dita “croquetagem”, e que o Sporting voltou a ser nosso.
O perfil
Desde o dia em que se apresentou como candidato às eleições de 2011, que se podia ver o tipo de homem que era Bruno de Carvalho. Alguém que não era movido pelos interesses bancários e financeiros, que tinha uma verdadeira paixão em comum com todos os simpatizantes e associados, focado em romper com o negro passado do clube. Alguém com a missão de aproximar, não o Sporting dos sócios, mas sim aproximar os sócios do Sporting, não afastá-los e governar à revelia da vontade soberana de quem verdadeiramente decide os destinos do clube.
Um homem que já tinha estado ligado ao Sporting, por via das modalidades (em particular, o hoquéi em patins), que já tinha pertencido a um dos grupos organizados de adeptos – vulgo, claques –, e que tinha uma vontade insaciável de servir o seu grande amor. Alguém que se iria rodear de pessoas competentes, com conhecimento do clube e do futebol português, para voltar a colocar o Sporting no seu lugar por direito.
O discurso
Desde cedo se percebeu que Bruno de Carvalho não era um candidato “normal”. O tipo de vocabulário usado, o foco do discurso, era sempre o completo oposto dos demais candidatos. Ruptura total com o passado, devolver o clube aos sócios, voltar a ser o grande Sporting em todas as modalidades, avançar para a construção do pavilhão. Enquanto outros se focavam meramente no espectro financeiro e na preocupação com a SAD não ser suficiente rentável para o clube ter participação na mesma, Bruno de Carvalho tinha no seu horizonte um projecto mais ambicioso, e não se poupou nas críticas e num discurso inflamado para tentar eliminar os candidatos que se queriam aproveitar do clube.
No entanto, traria ainda novos elementos para a mesa, aquando da sua eleição em 2013, vencendo de forma relativamente clara José Couceiro e Carlos Severino: as redes sociais e o foco destemido na imprensa nacional. Bruno de Carvalho nunca se coibiu de utilizar o Facebook para fazer todo e qualquer comentário, seja sobre o clube, seja sobre terceiros. Um grau de exposição que, se por um lado pode ser utilizado em seu favor, para se aproximar da massa adepta, incorre num perigo demoníaco, que é o da interpretação do que diz, do “outro lado” do ecrã.
A história de fa(c)to
Tudo começou a ser mais claro na época em que Marco Silva chega para ser treinador do clube – pouca foi a participação de Bruno de Carvalho no “reinado” de Leonardo Jardim. Aquando de algumas críticas de que começou a ser alvo nessa rede social, ameaçou processar sócios do clube, pois não tinham o direito de o fazer. Depois de uma derrota humilhante em Guimarães por parte da equipa principal, e de uma derrota por 5-0 da equipa B perante o Atlético, utilizou a rede social para acusar os jogadores de falta de dignidade e de honra para com a camisola do clube. Esta publicação foi o primeiro acto de “dinamite interna”, pois começaram a ser levantadas suspeitas das verdadeiras intenções de Marco Silva enquanto treinador – muitas destas suspeitas apresentadas por parte de José Eduardo.
A situação ficou de tal forma inflamada, que ditou a saída do técnico no final da época, após vencer a Taça de Portugal, frente ao Sporting de Braga, numa decisão que, apesar de ser compreensível para uma boa falange de adeptos, não foi a mais correta na sua forma – via um processo disciplinar, pois não aceitou sair “a bem”, e sendo invocada uma justa causa em que, entre outros itens, acusa o treinador de passar informações para a comunicação social, e de faltar diversas vezes ao respeito ao Conselho Directivo do clube.
A fase de um Jesus pouco Cristo
Qual não foi o espanto dos sportinguistas, e de todo o futebol português, quando foi anunciado que Jorge Jesus tinha chegado a acordo para ser o treinador do Sporting, após conquistar o bi-campeonato pelo Benfica. No primeiro ano do técnico em Alvalade, foi ele a ter uma grande parte do protagonismo em termos de discurso (apesar de alguns episódios recorrentes de Bruno de Carvalho, como caso de Mr. Burns – vulgo, João Gabriel, ex-diretor de comunicação do Benfica -, e os ataques constantes a Benfica e Porto), com as míticas declarações do “Ferrari” e de que o Benfica não tinha treinador – algo que, até hoje, ainda se discute como sendo um dos catalisadores para o título encarnado. Parecia que Bruno de Carvalho tinha, finalmente, encontrado um treinador com quem alinhar o discurso mais externo do que interno.
No final da época de 2016/2017, que se revelou um fracasso, e já depois de Bruno de Carvalho ter novamente sido o centro das atenções, depois de ter ido ao balneário pedir explicações aos jogadores, depois de uma derrota em Chaves – que culminou com William e Adrien a falarem para a SportingTV, com um apelo à união dos sportinguistas em prol do objectivo comum -, o presidente comunicou que iria abandonar o Facebook, por não tolerar o ultrapassar de fronteiras em algumas das críticas apontadas a ele, e a bipolaridade dos adeptos, bem como a sua falta de exigência diária.
A terceira época de Jesus antevia-se como o “do or die” de todo um projecto. Se a primeira metade da época foi relativamente tranquila, com o clube a passar à fase de grupos da Liga dos Campeões, a ter uma prestação positiva no campeonato e nas restantes competições internas, a segunda metade foi o ponto de partida para o momento que o clube vive, atualmente.
O declínio anunciado
No início do ano de 2018, foi convocada uma Assembleia Geral, com o objectivo de votar alterações estatutárias e regulamentares, que confeririam maior poder ao Conselho Directivo e ao Conselho Fiscal e Disciplinar do clube – entre outros, o poder de levar a cabo uma medida de sanção aos elementos dentro do clube que possam transmitir opiniões discordantes daquela que é transmitida pelos órgãos sociais. Uma assembleia que, segundo os relatórios apresentados, terminou com os órgãos sociais a abandonar a mesma, depois de algumas críticas dirigidas principalmente a Bruno de Carvalho.
Visto ter sido inconclusiva a Assembleia, foi marcado nova concentração dos sócios para o dia 17 de Fevereiro com o objectivo de, não só votar as alterações estatutárias e regulamentares, mas também votar a continuidade dos órgãos sociais em actividade – sendo que a missiva apresentada por Bruno de Carvalho foi, parafraseando, “se não tivermos uma votação similar à das eleições do ano passado, os órgãos sociais demitir-se-ão em bloco”. Em jeito de pequeno ultimato, Bruno de Carvalho voltou a colocar nos sportinguistas a ideia de que, ou lhe davam o que queria, ou abandonava o clube.
Mas a situação extremou-se de uma forma clara e cabal após a derrota em Madrid, por 2-0. Bruno de Carvalho, poucas horas após o apito final, dirigiu-se ao Facebook para criticar o desempenho dos jogadores, inclusive questionando o profissionalismo deles – em particular de Bas Dost e Fábio Coentrão, alegando que foram sancionados propositadamente para não jogar a 2ª mão -, ou a explicar a Gelson Martins como devia ter feito um remate aos 32 minutos. Este post provocou um chorrilho de críticas por parte da opinião pública, sendo que no dia a seguir, os jogadores recorreram às redes sociais para mostrar a sua insatisfação pelas palavras proveridas pelo líder máximo.
A medida de Bruno de Carvalho foi, surpeendentemente, suspender todos os jogadores que partilharam a dita mensagem. Numa reunião no dia 7 de Abril, esta suspensão foi levantada, depois de uma reunião entre jogadores, equipa técnica e órgãos sociais, mas desde esta altura que o clima no clube, inclusive entre adeptos e sócios, se tornou cada vez mais crispado.
A semana mais negra da história do Sporting
O campeonato viria a terminar com uma pesada derrota – não nos números, mas pelo seu significado – nos Barreiros, frente ao Marítimo, que impediu o clube de se apurar para a 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Houve lugar, no final, a insultos, palavras menos simpáticas, e estiveram perto de ocorrer agressões entre jogadores e adeptos no aeroporto do Funchal. Nada faria prever, contudo, que no dia 15 de Maio, um raide de 50 indivíduos encapuzados entrassem no complexo da Academia de Alcochete, com o objectivo de agredir jogadores e equipa técnica. O dia mais negro da história do Sporting, e um dos mais negros da história do futebol português. E aqui começa um turn of events que colocaria Bruno de Carvalho na posição mais frágil, em 5 anos de presidência.
O discurso que teve no dia do incidente foi, passo a expressão, curto para alguém com a sua responsabilidade. Bem sei que a comunicação social gosta de extrapolar determinados excertos, e colocá-los fora do seu contexto, mas a linguagem corporal e aparente apatia perante o cenário dantesco que se verificou em Alcochete, não deixa ninguém indiferente, quando se pedia uma afirmação firme do crime cometido, um expresso pedido de desculpas a todos os afectados, e a tomada de medidas imediatas contra aqueles que injuriaram o bom nome do Sporting Clube de Portugal.
A partir daqui, instalou-se o caos no clube. A derrota na final da Taça de Portugal, as rescisões unilaterais de contrato por parte de alguns jogadores, o risco de perder a liquidez necessária para cumprir com as obrigações financeiras perante os accionistas e perante os compromissos diários do clube, o cenário de uma assembleia geral destitutiva marcada por Jaime Marta Soares, demissionário presidente da Mesa da Assembleia Geral, a eleição de uma Comissão Transitória que não se coaduna com o que está presente nos estatutos do clube, e a suspensão do Conselho Directivo.
O dia em que os sócios falaram
Todos estes episódios e acontecimentos levaram ao ocorrido no passado Sábado, dia 23 de Junho. Uma participação em massa por parte dos sócios (quase 15 mil estiveram no Altice Arena), para votar a favor ou contra a destituição do Conselho Directivo presidido por Bruno de Carvalho. Sendo certo que, se tivermos em conta as intervenções que tiveram lugar no palanque, o apoio ao presidente parecia notório, pairava uma incerteza no ar, e que poderia mesmo ser real a possibilidade de os sócios votarem a sua destituição. E assim aconteceu, de forma clara, com 71% dos votos a favor da destituição (representando cerca de 10 mil dos quase 15 mil sócios presentes). Uma resposta afirmativa e democrática da vontade dos sócios em terminar o ciclo iniciado em 2013 pela actual direção. Uma derrota que, no fundo do seu ser, Bruno de Carvalho deveria ter aceite e mover esforços para, por exemplo, fazer parte da oposição, ou mesmo apoiar uma futura lista candidata à presidência.
No entanto, aquilo que se verificou ontem, foi um dos casos mais caricatos e arrisco dizer vergonhosos por parte de um ainda dirigente do Sporting. Às 6h da manhã, Bruno de Carvalho anunciava, no seu Facebook, que deixaria de ser sócio e adepto do Sporting – sendo que apresentaria a carta de suspensão vitalícia de sócio esta segunda-feira -, para além de visar diretamente os sócios que votaram contra ele, chamando-lhes de “tristes e fracos de espírito”, e dizendo que a votação foi forjada e não representa a realidade – chegando ao ponto de criticar abertamente elementos como Eduardo Barroso, Daniel Sampaio ou José Eduardo, que sempre estiveram ao seu lado, e foram força determinante para que chegasse a presidente do clube.
Mais eis que viria o volte-face, algumas horas depois, após a conferência de imprensa da Comissão de Gestão do clube, encabeçada por Artur Torres Pereira, em que foi comunicado que José Sousa Cintra (apelidado de “homem do tremoço” por Bruno de Carvalho) seria o representante do Sporting na SAD, até às eleições de 8 de Setembro. Um volte-face que representa claramente o estado de quase loucura em que se apresenta, neste momento. A dificuldade em aceitar a derrota, em aceitar que os sócios votaram por um futuro em que ele não esteja presente e em aceitar que, de certa forma, foi ele que provocou a sua própria derrota. Os sócios do clube que ele apelida agora de “Campo Grande Futebol Club” votaram a sua destituição, e entristece-me que ele tenha chegado a este ponto, depois de o ter apoiado inúmeras vezes.
Há coisas na vida que tenho dificuldade em suportar. Vira-casacas são uma delas, principalmente quando um destes vira-casacas é o presidente do clube que cresci a amar e a apoiar em toda e qualquer circunstância. Este já não é o presidente que escolhi para o clube em 2011, em 2013 e que não escolhi em 2017 porque a minha situação de sócio estava irregular. O Sporting precisa de estabilidade e equilíbrio, e não é com este Bruno de Carvalho que a vai alcançar.
E aproveito para deixar a todos o repto: se têm medo de que o nosso clube volte para as mãos dos croquetes, dos roquetes e de todos esses acabados em “etes”, a solução é simples. Não abandonem o clube, como o presidente da SAD estava disposto a fazer, quando se viu perante uma derrota e afirmação claras por parte dos sócios. O Sporting somos todos nós, e tenho em mim a confiança de que, num universo de dezenas de milhares de associados, haverá mais do que um Bruno de Carvalho disposto a navegar-nos num bom rumo – tanto pelo bom conteúdo, como pela boa forma.
Um bem-haja a todos, e viva o Sporting Clube de Portugal!
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2017.09.11 12:34 gilsonvilain Dorocaso — Corações de Areia

Dorocaso Corações de Areia
“Essas alegrias serão jogadas ao esmo. A areia vai consumir suas lembranças até a última gota, e quando não sobrar mais nada você vai virar areia.” Jochasta, rainha dos esquecidos.
De pé ele olhava para as nuvens no céu sem sentir seus pés. Caminhando eternamente sem destino, elas vagavam escuras e carregadas como ele nunca havia imaginado. O solo é engolido pelo breu e os escorpiões alaranjados saem da areia. Cavando e cavando, centenas de lacraus submergem do da escuridão, brilhando e batendo suas garras como soldados marchando para o combate. O medo lhe puxa pela espinha, mas suas mãos estão vazias. Ao longe uma sombra de luz surge na imensidão.
-Davi! A cidade chegou! Davi! Você ainda não acordou? –Disse Franz ao lado da porta. Seus cabelos loiros iluminavam demais para sua vista adormecida. Piscando com força seus olhos, devagar ele se esticava na cama de esponja até sentir suas articulações despertarem. –Hoje não é o seu dia de vender as beterrabas? –Como um soco no peito ele se levantou. O sol já se erguera, e ele ainda estava ali.
-Chuva! –Disse o rapaz se pondo de pé velozmente, apenas para sentir uma tontura e perder parcialmente a visão tendo que se apoiar nas paredes para se manter. Calçando os sapatos escuros e com cheiro engraçado ele se ergueu novamente. Desviando das pequenas lâminas curvadas no chão, ele achou seu caminho até Franz.
-Eu e o Caiou já colocamos as caixas no Sableridge, até que horas você ficou afiando as talons? –Disse o Franz cedendo espaço para que Davi passasse correndo para as escadas. –E não esqueça de comprar um filtro novo para o reservatório!
Subindo as escadas como um lobo atrás de sua presa, Davi vê de relance Seth, Nami e Gilli sentados na mesa da cozinha. –Até as crianças já estão acordadas e eu aqui. –Subindo as escadas enquanto afivelava o cinto marrom, ele se voltou para a janela, olhando ao fundo a grande cidade cinzenta parada no deserto. –Mau dia! –Disse ele pegando a máscara azul presa na parede ao lado do espelho retangular e a colocando em seu rosto. Apertando o fecho e pressionando o único botão em sua lateral, ela se acendeu em um branco fraco. –Ah não!
Olhando a lateral do respirador ele passou o dedo por cima de pontinhos roxos que cercava o gradeado da máscara. Com o polegar pelo lado de dentro ele pressionou o puxador, fazendo as grades se abrirem e liberando a película tomada por centenas de micro pontos que variavam de roxo até rosa fraco. Davi abriu o armário de metal embaixo do espelho deixando que uma brisa gélida saísse. Colocando a película para dentro, fechou a porta e acertou o tempo para quinze segundos. Olhando novamente o espelho ele notou várias manchas de sangue coagulado em seus ombros e braços. Davi deu a volta e foi até a impressora amarelada de sujeira. Pressionando o menu ele selecionou a cor, comprimento da manga e por fim o tamanho, fazendo que a máquina emitisse um som agudo e constante ao passo de que o armário embaixo do espelho soou três apitos seguidos. Retirando a película sem luvas Davi sentiu como se seus dedos fossem derreter, só então sentindo o real frio quando encaixou a lâmina branca de volta na máscara. Vestindo a camisa bege de manga comprida, ele religou o respirador que se acendeu em um branco forte.
Fechando a porta de trás e abrindo a da frente ele foi em direção ao Sableridge. Vários arranhões circundavam o veículo encouraçado, as duas esteiras frontais estavam gastas mas não chegavam ao nível de desgaste dos pneus traseiros. Estes foram remendados tantas vezes que Davi já não sabia se eram feitos de borracha ou de remendo. A lataria perfurada era estrategicamente escondida pela sujeira e a lama viscosa das estradas. –As chaves! –Pensou ele batendo as mãos nos bolsos, só para perceber que não portava nenhuma. –As chaves! Gritou ele em direção a toca.
-Já estão dentro! - Disse Caiou do segundo andar. Davi Se aproximou do painel e ouviu o som de motor. Ele se voltou para Caiou e assentiu com a cabeça.
Poucas estradas cruzam em direção ao grande deserto. A pista de fogo sai da capital até o batalhão especial no sul, circulando o continente e passando por todas as grandes vilas. Usando areia vermelha para montar seus tijolos, a pista de fogo era o jeito mais fácil e seguro para aqueles que não possuíam problemas com o Armata. Ao seu lado muitas trilhas foram feitas ligando pequenas vilas até a pista de fogo, como galhos em um tronco. A estrada de pedra sai das grandes montanhas e se conecta com as estradas de terra, geralmente usadas por contrabandistas ou fugitivos, uma vez que não haviam patrulhas. Davi saiu da toca e seguiu em frente pegando a estrada de barro, o caminho que ele mesmo batizara, ligando a toca até a vila das palmeiras a oeste. Com uma agricultura rudimentar, a vila das palmeiras resistia apenas pela criação de roedores. Fáceis de alimentar eles eram a moeda de troca de algumas dezenas de famílias. De lá ele pegou a estrada de ferro, cruzando a floresta das almas até o grande deserto ao norte. Dali ele já conseguia ver as marcas de pneus na areia, sinal de que estava atrasado. Acelerando ele sentiu o veículo trepidar e perder força, mantendo o acelerador pressionado enquanto reduzia a marcha. Ainda assim a força havia indo embora, e ele seguiu até a pista de fogo na velocidade de um homem correndo. Devagar ele viu rasgando o deserto azul e branco. Mais de mil passos de largura, e outros oito mil de comprimento, com esteiras maiores que a vila das palmeiras, e com pistões mais fortes que dez mil homens, marchando para cima e para baixo, em um compassar estrondoso. Maciça e barulhenta, ela cavava com seus pistões exteriores descendo e subindo como um ferreiro batendo seu martelo, se enterrando mais fundo naquela areia sem dono, ela descansava enquanto ele se apressava. Apertando o pé contra o pedal e tentando aumentar as rotações, ele notou um grupo de pessoas segurando placas. Davi não conseguiu ler o que estava escrito, as manchas azuladas em suas peles tiraram sua atenção. Engatinhando pela estrada de fogo, ele rumou ao sul do titã encouraçado, seguindo outros veículos que jaziam estacionados ali.
Davi estacionou o sableridge ao lado de uma motocicleta de propulsão amarela. Algumas dezenas de veículos estavam ali, ainda assim Davi se surpreendeu com a baixa quantidade. Em temperaturas amenas, aquele pátio sempre estivera lotado de lanchas terrestres e caminhões. No porta-malas ele retirou as quatro caixas cheias de beterrabas, cada uma pesando metade de seu peso. Suas veias saltaram por entre a pele, e com um urro de vontade ele as ergueu caminhando lentamente até a entrada norte.
-Vento! Eu preciso ir até o templo das Lamentações! –Disse uma voz vinda de trás de Davi. Ele girou sua cabeça para procura-la mas no instante seguinte ela havia sumido. –Você tem um carro, pode me levar lá? –Disse a voz. Davi abaixou as caixas e conseguiu ver a moça a sua frente. Bem menor do que ele suspeitava, ela se erguia pouco a cima das quatro caixas deixadas no chão. Olhos cinzentos e lábios fartos, ele não conseguiu distinguir mais nenhuma caraterística dela, além de sua barriga proeminente e arredondada.
-Eu estou indo vender beterrabas na vila. –Disse ele olhando seus braços finos e curtos. –Esse templo fica no norte, não acho que tenha alguém de lá por aqui. –Disse ele se abaixando para pegar as caixas.
-Você não entende, eu preciso ir lá! –Disse ela erguendo a voz e riscando a areia com seu pé.
-Eu entendo, mas agora eu não posso fazer nada para te ajudar. –Disse erguendo novamente as caixas e a perdendo de seu campo de visão.
-Você pode depois? –Perguntou ela com um tom mais doce. Davi começou a andar e não olhou mais para trás. –Vou te esperar aqui!
-Não foi isso que eu quis dizer. –Falou ele alto o suficiente para ouvir suas palavras ecoarem pela vastidão seca, mais baixo o suficiente para não ouvir resposta alguma.
Se arrastando para frente, uma moça de cabelos escuros e longos passou por ele, porventura as caixas ainda tapavam sua visão frontal, o impedindo de conseguiu ver seu rosto. Ele gostava da ideia de andar sem ser percebido. Ao seu lado as vozes vindas da cidade se intensificavam, o empurrando para frente. Ouvindo passos na areia, ele inclinou a cabeça para ver um homem baixo com uma barriga proeminente caminhando de mãos dadas com uma menina de cabelos alaranjados. Os escorpiões voltaram a sua cabeça, e ele desejou que Nissa falasse algo que o puxasse de volta, mas ela estava na toca.
-Chuva! Posso ajudar? –Disse o homem com turbante branco, portando uma máscara amarela e uma barba escura e rala. Davi abaixou as caixas e suspirou por um segundo relaxando os ombros. O homem flexionou os olhos e pequenas bolsas de pele surgiram em cima de suas bochechas.
-Chuva! Eu vou vender as beterrabas. –Disse ele esticando a mão em direção ao homem.
-Os vendedores de comida já estão localizados no setor dois, penso que não há mais espaço para estandes. –Disse o homem o olhando de queixo erguido.
-Eu me atrasei. –Disse Davi abaixando o braço e se aproximando. -Mas eu tenho uma reserva. –Disse batendo as mãos nos bolsos. -E eu conheço o prefeito. –Disse Davi gesticulando com suas mãos armadas em veias proeminentes enquanto ele abria os bolsos internos da camisa.
-Certamente que não conhece. –Disse o homem de turbante. –Uma vez que eu não tenho nem ideia de quem é você, e eu sou o prefeito; Alouite Seeiso. –Disse o homem dois palmos menor que Davi, erguendo ainda mais o queixo para cima. Davi desistiu de procurar a licença e coçando a cabeça.
-Eu deixei na outra camisa! –Percebeu ele olhando para o céu. -Na verdade o prefeito que eu conheço se chama Timothy, ele tem cabelos escuros, é magro e... –Disse Davi gesticulando as medidas com as mãos. –Alto.
-Ah. –Disse Alouite. –Esse é o segundo prefeito. –Disse abaixando a cabeça e apertando os dentes. –De qualquer modo eu sou o prefeito para os assuntos externos da vilavassoura. Eu cuido de quem entra e quem sai.
-Eu sei. –Disse Davi sorrindo por debaixo da máscara. –O Thimoty cuida da manutenção da vila, proteção das pessoas, educação dos jovens, tratamento dos enfermos, conserto das máquinas, contrata os seguranças. –Enumerou Davi olhando para as beterrabas ardendo no sol do deserto. –E o senhor cuida de quem entra e sai. –Disse Davi se mordendo para não o chamar de porteiro.
-Thimoty tem suas funções, eu tenho as minhas. –Disse ele se virando de costas. -E o período para alocação de novos estantes já se encerrou.
-Eu também preciso comprar um filtro. Já acabou o período de entrada de compradores também?
-Hum. –Disse o prefeito de turbante declinando o queixo e encarando os tubérculos. –Você entra, as beterrabas não.
-Tudo bem, quando eu encontrar um vendedor de filtros, eu peço para ele vir até aqui fora retirar o pagamento, o senhor toma conta delas para mim? –Perguntou ele levantando uma caixa e colocando aos pés do prefeito. O homem bufou mais forte e se voltou para recolocar a caixa em cima das outras. Buscando todas as forças de seus braços flácidos, o prefeito ergueu a caixa poucos centímetros do chão, soltando suas alças e voltando a ficar ereto.
-Leve isso daqui. –Disse Alouite ofegante.
-Obrigado senhor prefeito! –Disse Davi erguendo as quatro caixas e seguindo em frente para a o portão de acesso.
-Bem-vindo a vilavassoura. –Disse ele em um tom seco. –Espero vê-lo novamente. –Apertando os olhos e ajeitando o turbante.
O chão de areia afundava a cada passo de Davi. Jogando areia para trás, ele sentia que a cada passo andava menos. Pisando em falso sentiu a areia dar lugar a tábuas de metal. Forçando os joelhos ele subiu a entrada que se elevava pelo menos oito passos do nível do chão. A grande fachada esculpida em madeira e aço, dizia “Village de Balai Cinq”, vilavassoura em uma língua antiga. A gigante de aço possuía metralhadora automáticas acopladas a parte de dentro apontadas para o chão. Aportando e um lugar diferente a cada dois dias, a bordo ela levava mais pessoas que ele conheceria sua vida inteira. Mais cores de cabelo do que tons de céu, mais vozes do que mil autofalantes. O cheiro das comidas, mesmo passando pelo respirador, já encharcava Davi por dentro. Olhando para o arco de entrada, ele viu seis guardas carregando fuzis e ao seu lado um grupo de pessoas rodeando um grande homem de cabelos longos e encaracolados. Davi abaixou as caixas para conseguir olhar por cima, fazendo seus músculos guincharem por dentro, mas seguindo em direção as pessoas.
-Eles andam em caravanas. Centenas de milhares. Caminham até as vilas, e lá destroem tudo. Nada fica para trás, nem os habitantes, é terrível! –Disse a senhora de cabelos curtos usando uma camisa de flores brancas, combinando com sua máscara.
-Devem ter sido mandados pelos homens de sabão. Eles estão há décadas se alastrando pelo litoral. –Disse o senhor de máscara lilás com um guarda-chuva em mãos.
-Não são os homens de sabão, quando paramos na vila da pedra, um soldado me disse que eles comem as pessoas e usam os ossos como adereços, isso é coisa do povo vermelho! –Disse o senhor careca usando um roupão verde.
-Estamos seguros aqui. –Disse o homem no centro, rodando os dedos por entre os fios de cabelo que caiam por seus ombros. –Além disso, todos os relatos são de vilas no Norte. Não há nenhum indício que ela esteja marchando para cá.
-O bosque vermelho foi dizimado. A fumaça chegou até a capital. Quando a Armata foi para o socorro, só haviam cinzas. –Disse a senhora. O homem alto inclinou a cabeça atento a suas palavras quando no meio da multidão, algo pescou sua atenção.
-Com licença. –Disse o homem alto esticando o braço. –Davi?
Davi o olhou e sorriu, ganhando espaço em meio ao aglomerado, colocou as caixas no chão esticou a mão e apertando o antebraço do senhor.
-Chuva Prefeito! –Disse ele chacoalhando o braço e sentindo os dedos finos e longos se apertarem em sua pele.
-Veio vender amoras? –Perguntou o homem de pele clara e lábios roxos e esticados.
-Pretendia. –Respondeu Davi apertando os olhos e observando as beterrabas por um instante até retornar os olhos para o prefeito. Ao seu lado havia uma grande porta dupla de vidro que guardava o estreito corredor em frente, lotado de pessoas andando por entre as lojas. O prefeito girou sua cabeça na mesma direção e coçou o nariz pontiagudo.
-Vamos ver onde eu consigo colocar você. –Disse Timothy dando um tapa em seu ombro. Davi pegou as caixas nos braços e o seguiu enquanto ele entrava na antessala do tumulto. As vozes se mesclavam a multidão atrás do vidro, podia se ouvir tudo, mas nada se entendia.
-Não vi você aqui mês passado. –Disse o prefeito erguendo os braços enquanto a primeira porta de vidro se fechava. No mesmo instante um jato de fumaça quente e clara saiu do chão e inundou toda a parte enquanto o prefeito retirava o respirador. Alguns segundos depois a fumaça se esvaiu pelo teto e a segunda porta se abriu dando acesso ao corredor.
-Mês passado. –Repetiu Davi erguendo as caixas de madeira. –Deu um vazamento lá em casa, tive que desligar todas as saídas de ar, perdemos boa parte da colheita.
-Sinto muito. Suas batatas são ótimas, as cenouras nem tanto. –Disse ele espiando as beterrabas por entre as frestas da caixa. –Você teve mais alguma notícia do Colm? – Davi balançou a cabeça. A mão do prefeito veio ao seu ombro mais uma vez enquanto ele sorria olhando para o chão. -Já pode tirar o respirador. –Disse o prefeito olhando Davi. Cerrando os olhos ele abriu a boca por um suspiro e a fechou. –Eu esqueci, o Colm me contou, mas eu esqueci, desculpa. –Disse ele enquanto Davi erguia o ombro e coçava a cabeça.
Adentrando a multidão de pessoas andando por entre as lojas, o prefeito achava brechas entre os cotovelos e ombros para Davi passar sorrateiramente, avançando entre bolsas e mochilas, sua altura lhe forneci uma visão privilegiado do pátio interno. Alguns passos para frente e uma voz chamou “prefeito! ”. Thimoty se virou e viu um sujeito de pele escura com olhos vermelhos. Com os dedos o prefeito gesticulou pequenos círculos, voltando sua cabeça para frente e seguindo até a segunda parte sem se virar para trás.
-Aqui estamos! –Disse o prefeito olhando o círculo de vendedores sentados em frente a caixas de legumes. –Você vende amoras, amoras são como alfaces não? –Perguntou ele, jogando um cacho de cabelos para trás enquanto olhava para as alfaces.
-Os dois são plantas, mas acho que beterrabas entram mais na sessão de raízes. –Respondeu Davi.
-Hahahahaha raízes! Mas não vendemos árvores aqui, e o único estande que tem espaço é o da alface. –Disse ele apontando para as folhas verdes e crespas. Davi virou a cabeça, mas não disse nada, apenas sorrindo para o prefeito e colocando as caixas no chão. –Chuva minha menina! Qual seria o seu nome? –Perguntou ele piscando para a jovem de cabelos escuros sentada atrás das caixas da alface.
-Naya. –Disse ela entortando a boca e olhando Davi de baixo para cima. –Naya Avilis, senhor. – Seus cabelos se agrupavam em cachos pequenos e longos. O delicado nariz arrebitado apontava para Davi enquanto ela falava com o prefeito. Davi apertou os punhos para tentar sair do seu encanto, mas já tinha certeza que estava encarando a jovem a tempo de mais.
-Este menino tem problema. –Disse o prefeito em direção a Davi, que mesmo assim não tirou os olhos de Naya. –Ou teve um problema. Ele pode dividir o espaço com você hoje? –Perguntou se abaixando e analisando de perto as hortaliças.
A jovem olhou sem expressão para Davi, que corou em menos de um suspiro. Ela ergueu o braço e puxou ar para argumentar, mas virou a mão e o olhou de lado.
-Achei um lugar para você! –Disse o prefeito voltando a ficar de pé. –Vocês se acertam então, eu vou ali procurar algum nabo. –Disse ele sorrindo e andando em direção aos tomates.
-Com licença. –Disse Davi colocando as caixas roxas ao lado das verdes. –Eu me chamo Davi. –Disse ele esticando o a mão em frente. A jovem sorriu e apertou seu antebraço.
-Naya. –Repetiu ela cedendo espaço para que ele dividisse a caixa ao seu lado. –Você por acaso não tem nenhum anel de vilírdia, tem? –Perguntou ela observando um roxo no pescoço de Davi. Ele balançou a cabeça tapando o machucado com a mão direita. –Imaginei que não. –Disse ela erguendo a sobrancelha ao olhar o respirador branco. –Você já foi lá? –Perguntou ela enquanto Davi levantava as sobrancelhas e fazia um beiço com os lábios. –Eu nasci lá. Em Viliris. Você é daqui?
-Eu nasci no Norte. –Mentiu ele. -Uma vila comerciante. –Disse engolindo em seco e levando os olhos até o rosto dela. –Onde fica Vilirdis?
-Viliris. Você nunca ouviu falar? –Perguntou ela abaixando as sobrancelhas e erguendo as bochechas. –Eu saí de lá ainda muito pequena, mas ela fica no extremo leste, entre mares. –Disse ela erguendo a mão e gesticulando uma onda. –No encontro de três continentes, uma linha traçada nos oceanos, delimita a vida e a morte poente, a água dá início e fim aos planos, construindo a ferro e fogo; o tridente, E costurada através dos séculos; mil anos, surge no mar da primeira e última corrente, Viliris, a cidade com sangue dos tiranos, viva para sempre, Viliris, a cidade descontente. –Cantou ela abaixando a mão ao final.
Davi a olhou boquiaberto. Nunca ouviu da cidade, mas as palavras deixavam sua boca com pétalas se soltam de flores no outono. Sua pele lisa acendia entre o cinza das paredes. Seus olhos escuros puxavam sua alma para dentro, e ele já não tinha forças para segura-la. Suspirou fundo e balançou a cabeça.
-Ela fica... no mar? –Perguntou ele encarando as alfaces.
-No Nemo. –Disse ela tirando o cabelo da frente dos olhos. –O ponto mais distante da terra entre os três continentes. –Disse abrindo um tímido sorriso. –Um dia eu vou voltar para lá.
-Quanto pelas batatas rosas? –Perguntou o homem alto de cabelos castanhos curtos que se aproximara usando uma capa marrom e um colete escuro, com braçadeiras pretas que vinham até os pulsos, e duas grandes cicatrizes no pescoço.
-São beterrabas. –Disse Davi se levantando e pegando uma da caixa.
-Batatas, baterrabas, tudo a mesma coisa. –Disse o homem estreitando os olhos. Passando a mão por dentro do colete, ele retira uma corrente avermelhada e a entrega para Davi. –Doze batatas rosas? –Perguntou ele. Davi olhou para a corrente e esticou a mão para pegá-la. Passando os dedos entre os elos e olhou de volta para o homem.
-Oito. –Disse Davi. O homem passou a mão em outro bolso e retirou um pequeno brinco prateado e o colocou na mão de Naya.
-Doze. –Disse ele rangendo os dentes enquanto ela olhava para a joia. Davi se voltou para Naya que segurava o brinco em frente aos seus olhos.
-Doze. –Repetiu Davi assentindo com a cabeça. O homem retirou a mochila das costas e começou a escolher as beterrabas. Naya entregou o brinco a Davi que o segurou com as pontas dos dedos. O brinco imitava o formato de uma orelha, adornado de pequenas pedras azuis, ele formava uma ponta no topo. Voltando-se para o homem, Davi já não o encontrava a multidão de pessoas andando entre as vendas.
-Bonito esse brinco. –Disse Naya passando o dedo por sua ponta.
-Você quer? –Perguntou ele corado.
-Ele é seu. –Disse ela se afastando.
-Eu não uso brinco, ele iria ficar bonito em você. –Disse ele esticando a mão em sua direção. Ela o apanhou e colocou na orelha esquerda.
-Como ficou? –Perguntou ela.
-Sen... –Disse ele buscando ar nos seus pulmões. –Sensacional. –Completou sorrindo.
-Mas eu não te conheço, não posso aceitar um presente assim. –Disse ela desatarraxando o pingente.
-Não, é um presente. –Disse Davi esticando seu braço em direção as hortaliças e pegando uma folha verde e molhada. –É uma troca. –Disse ele mordendo a alface com força e empurrando o resto da folha para dentro da boca. Naya riu e colocou o brinco de volta.
Antes do sol chegar no topo, todas as beterrabas já haviam sido trocadas, ao passo que mais da metade das alfaces esperavam paciente nas caixas de madeira. Davi já havia aprendido sobre o período de Naya em Viliris, sobre o Vento, o barco de seu pai que havia cruzado todos os mares baixos da costa entregando tâmaras do oceano. Dos monstros antigos que ameaçavam os cargueiros a cruzar os estreitos de pedra. Do tempo em que Naya morou nas minas de marfim com sua tia, das aventuras nas montanhas azuis, de sua vinda até a vilavassoura. Davi podia ficar ali o ano inteiro a ouvindo falar.
-Eu moro em uma “casa” na floresta. –Disse Davi apoiado na borda da vila vassoura apontando para o horizonte. –Você continua por aquele caminho até a vila das palmeiras e vira para a estrada de barro.
-Eu preciso ficar aqui a tarde, você não volta amanhã? –Perguntou Naya olhando as árvores dobradas. Davi balançou a cabeça olhando para baixo. –Meu pai é dono de uma empresa de mineração perto daquela montanha ao sul. Talvez eu volte para visita-lo um dia. Se você me convidar para conhecer a sua casa, talvez eu aceite o sofrimento de passar um tempo com ele.
-Ele é mau com você? –Perguntou Davi se voltando para ela. Na parte de fora do mercado, os dois se escoravam na lateral da cidade de aço. Naya usava um respirador vermelho com azul. Davi pensou em sugar todo o ar do mundo só para poder ver seus lábios mais uma vez.
-Ele é ausente. –Disse ela olhando para a amontanha verde. –Desde que ele deixou o barco e criou raízes na terra, ele não tem tempo para mais nada.
-Se você quiser ir lá em casa, eu acompanho você até essa fábrica. –Disse ele sorrindo por debaixo da máscara.
-Gostaria de ver você tentar. –Respondeu ela o olhando no fundo de seus olhos. –Você é diferente Davi. –Ele se virou de costas para a borda da cidade se encostou com as costas e cotovelos.
-Diferente bom? –Perguntou ele inclinando a cabeça.
-Diferente, porque você tem tantos roxos pelos braços? –Perguntou ela se voltando para examinar os machucados.
-Ah isso. –Disse ele olhando para um grande hematoma no seu pescoço. –Você me acompanha até a toca, e eu te conto o que você quiser saber sobre mim.
-Hum. –Disse ela torcendo o lábio. –Isso é um encontro? –Perguntou ela erguendo as sobrancelhas.
-Não, isso é só uma conversa. –Respondeu ele observando o brinco em sua orelha esquerda. –Quando eu te ver de novo será um encontro.
-Me diga algo primeiro. –Disse erguendo as sobrancelhas. –Porque você entrou no mercado de máscara? –Os pelos nos braços de Davi se eriçaram e ele baixou os olhos, dando um passo para trás.
-Eu preciso ir. –Disse ele diminuindo em tamanho.
-Desculpa. –Disse ela. –Eu não queria...
-Não há nada por que pedir desculpas. –Disse ele se aproximando das caixas vazias deixadas no chão. –Eu não me importo tanto com isso. –Disse ele desengatando a fivela que prendia a máscara branca. Devagar ele a abaixou segurando a respiração. Engatando novamente suas pontas ele puxou o ar com dificuldade até o respirador se acender em branco. –Mas as pessoas olham muito quando eu fico sem. Por isso prefiro ficar com ela.
-Com quantos anos você saiu de lá? –Perguntou ela deixando que as lágrimas corressem soltas sem se importar.
-Eu não sei. –Disse ele sorrindo com os olhos. –Minha mestra me tirou de lá, eu conto meu aniversário a partir daí.
-Entendo. –Disse ela limpando os caminhos deixados pelas lágrimas em seu rosto. –Então, eu passo a vila das palmeiras e viro à esquerda?
-Esquerda de quem vêm, direita de quem vai. –Disse ele caminhando em direção a saída da vilavassoura.
-Eu vou mesmo hein. –Disse Naya passando os dedos no brinco esquerdo.
-Assim espero. –Disse ele erguendo a mão e a balançando no ar. –Chuva Naya de Viliris!
-Chuva Davi! –Disse ela já distante.
Caminhando até o sableridge com as caixas vazias, tudo o que Davi conseguia fazer era reviver em sua mente as lembranças que recém fizera. Entoando as falas e buscando por detalhes que havia deixado passar. Naya deixou seus olhos, mas não sua mente. O cheiro doce. Desejou poder sentir aquele perfume para o resto da vida, mas tudo o que tinha era ar filtrado.
Caminhando sem pensar, avistou o sableridge, agora com muitos veículos ao redor. Sem pressa ele depositou as caixas no seu porta-malas e deu a volta para ir embora. Entrando ele fechou a porta e esticou a mão para puxar o cinto, olhando para o lado e sentindo seu coração apertar tanto que poderia sair do lugar.
-Agora você me leva? –Perguntou a moça grávida sentada ao seu lado. Davi não gritou, mas sentiu sua alma tremer.
-O que você está fazendo aqui dentro?! –Perguntou ele soltando o cinto a abrindo a porta.
-Você disse que me levaria. –Respondeu ela afivelando o cinto.
-Não! Eu disse que... –Começou ele apontando seu dedo, só então tentando lembrar do que havia dito. As palavras se enrolavam em sua mente, mas ele tinha noventa por cento de certeza de que não havia dito aquilo. Olhando para dentro ele viu os olhos da moça se abaixarem enquanto ela erguia os lábios inferiores para frente. –Eu não vou para lá. Posso te deixar na vila das palmeiras, de lá talvez você consiga alguma carona. A moça concordou com a cabeça, e Davi reentrou no sableridge.
Dirigindo em silêncio para fora da cidade na areia, Davi notou quatro motocicletas estacionadas na entrada da floresta que dava caminho para a estrada de ferro. Olhou para os lados, mas não viu ninguém, decidindo por seguir em frente. Pensou que se tivesse com a Ajna, poderia rever seu rosto depois, mas com a incerteza das vilasvassoura, talvez tudo que restasse fosse aquela memória malformada ainda.
Acelerando em frente o veículo começou a falhar perdendo força. Reduzindo a marcha as esteiras forçavam o carro sem resultado. Duas motos de propulsão surgiram em meio as árvores retorcidas e tomaram a frente do veículo. Davi pisou o acelerador, mas as rotações não aumentavam, permanecendo pouco mais rápido que um homem caminhando.
-Ele não anda mais que isso? –Perguntou a moça olhando para o velocímetro no painel. Davi tirou os olhos do volante e examinou as marcas no chão, só então se voltando para ela.
-Peixe dado não se olha as ovas. –Respondeu pisando fundo no acelerador sem retorno. Ao longe um ronco começou a crescer. Olhando pelo retrovisor ele viu quatro motos se aproximando.
-Talvez eles possam ajudar. –Disse ela olhando com seus olhos cinzas pelo retrovisor.
-Você conhece eles? –Perguntou Davi olhando os quatro homens descerem das motos com armas em mão. Ela balançou a cabeça se apertando para trás. Parando ao lado da porta do carro, um homem a apontou um revólver para Davi. Segurando o volante com mais força e retirando o pé do acelerador, o carro morreu.
-Sai todo mundo! –Disse o homem do lado de fora. Davi olhava fixamente para a moça. Respirando forte ele não sabia como havia sido tão ingênuo. Claramente ela conhecia eles. O velho truque da laranja que prepara o terreno para seus amigos. Seu sangue fervia em suas veias, e ele sentiu vontade de dar um soco naquela barriga falsa. Mas aquela arma era o problema principal, por enquanto
-Calma amigo, a gente só quer o que você ganhou lá dentro. –Dizia outro homem de ombros largos e cabelo curto, usando um respirador azul escuro, ao lado da porta do carona. Suando frio, ele não ousou olhar para o porta-malas, onde todo o seu ganho daquela manhã estava guardado.
Davi respirou fundo e retirou o cinto de segurança, apertando o botão vermelho abaixo do volante antes de ser puxado pela fora pelo homem que se agarrara ao seu pescoço, o jogando no chão. O homem careca se aproximou e começou a dar tapas nas pernas e braços de Davi que tentava se recompor.
-Limpo. –Disse o careca se afastando.
-Se vocês continuarem assaltando os clientes da vilavassoura, eles vão apenas parar de vir aqui. –Disse Davi olhando o homem de máscara azul enquanto outros dois entraram no sableridge revirando os bancos em busca de algo. A grávida estava em pé do lado de fora segurando sua barriga falsa.
-A gente segue ela, problema nenhum, sabe. –Disse ele fixando os olhos escuros em Davi. –Mas pelo visto você já tem um costume de ser assaltado, sabe. –Disse ele olhando para os roxos nos braços de Davi.
-Mais ou menos. –Respondeu ele olhando para trás. Um distante ronco de motor vinha em direção a estrada de fogo. Davi só conseguia pensar em quanto odiava surpresas.
-Tem uma luz piscando aqui dentro. –Avisou o homem de barba grisalha de dentro do carro.
-Você chamou alguém? –Perguntou o homem de azul dando um tapa no rosto de Davi. –Eu queria fazer as coisas sem violência, mas vocês sempre pedem, sabe. –Disse ele puxando a arma de trás das costas e apontando em direção ao barulho.
-Não chamei ninguém. –Disse Davi vendo no horizonte um veículo preto se aproximando, enquanto sentia seu rosto esquentar. Davi estava tão confuso quanto eles, o carro parecia ser de Thimoty. O homem deu-lhe mais um tapa com as costas da mão e Davi caiu de joelhos segurando a máscara. Do chão ele viu o assaltante disparar uma saraivada de balas em direção ao carro, fazendo que ele virasse para o lado e batesse em cheio a uma árvore, levantando uma nuvem de areia.
Thimoty, aquele era o carro do prefeito. Rodas prateadas, capô adornado em madeira. O que ele estaria fazendo ali, se perguntou no chão.
-O que a gente faz Tellius? –Perguntou o homem careca.
-Vá ver quem está lá! –Urrou o homem de azul apertando os dentes. Correndo em direção ao carro preto, um vulto abriu a porta e saiu mancando escorando-se nas árvores.
-Quem vem lá? –Perguntou o homem careca apontando seu revólver. Uma voz doce veio em resposta, atiçando os nervos de Davi ao máximo.
-Naya. –Disse ela erguendo as mãos enquanto o homem se aproximava.
Davi olhou para cima ignorando a conversa entre os dois. Procurando no céu, ele ainda não havia encontrado nada.
-Não vai chover hoje não garoto. –Disse o homem de azul rindo em pé a sua frente. –Tragam a menina, tenho um amigo que pagaria bastante por ela, já essa grávida aí...
-Não é chuva que eu espero. –Disse ele vendo um risco no céu.
O homem abaixou o rosto para olhar novamente para Davi, sendo surpreendido por uma cabeçada em seu estômago. Davi se levantou e subiu em cima do carro gritando “Aqui, aqui! ”. O risco no céu voava rápido e ao se aproximar largou uma grande caixa de metal em cima do veículo, balançando sua estrutura e levantando uma grande nuvem de poeira e detritos.
-Maldito! –Disse o homem de azul no chão com uma mão na barriga e a outra tapando os olhos contra a poeira. –Eu vou te picar inteiro e te jogar para os peixes, sabe! – Ao seu lado a grávida corria para dentro da floresta em direção a vila das palmeiras.
Davi pulou em cima da caixa e ela jogou uma forte luz esverdeada que o varreu por completo em menos de um piscar de olhos. A caixa abriu as laterais, saindo lâminas longas que se encaixaram nos pés de Davi, subindo o tornozelo, joelhos até se prender completamente nas duas pernas. As lâminas se prendiam desordenadamente, se arrastando entre si até encontrarem o seu encaixe. Davi pulou para frente a caixa se ergueu em seu próprio eixo, encaixando uma camada de lâminas nas suas costas, correndo o metal até os seus braços, cobrindo cada parte do seu torso. Ele se virou para trás ouvindo um tiro, rapidamente pegando o elmo prateado com um círculo azul claro no meio. Ajeitando em sua cabeça, ele se voltou para olhar os homens ainda confusos pela nuvem de poeira.
Investindo em frente, Davi passou as lâminas das mãos pelas costas do braço do homem de azul, fazendo seis pequenas e rápidas incisões em seu braço direito, enquanto contornava por trás, golpeando as pernas do homem sem reação. A lâmina fina penetrava a carne como um graveto penetra a areia. Entrando e saindo, ele costurava uma trilha de pequenos furos que passavam a pele e se enterravam até ele sentir um desengate interno. Indo para dentro do carro, Davi golpeou os dois invasores dezenas de vezes em pontos entre as costas e a barriga, sem derramar uma única gota de sangue. Com a poeira baixando ele conseguiu ver ao longe o homem careca apontando a arma para Naya, tremendo como um galho fino em frente ao furacão. Jogando a arma no chão, ele correu para trás, em direção ao grande deserto.
-Meus braços, o que você fez com os meus braços?! –Perguntou o homem no chão. Davi se aproximou emitindo um som de lâminas de metal se arrastando umas nas outras. Davi já estava cansado, e aquela armadura facilmente pesava o dobro das caixas de beterraba.
-Meu juramento me proíbe de matar qualquer um que não esteja no mesmo nível. Eu só cortei todos os tendões dos seus braços, você não vai mais usa-los. –Disse Davi retirando o elmo. –Mas o juramento não fala nada sobre abandonar moribundos. –Disse Davi passando a lâmina da mão esquerda por entre a tira que prendia a máscara azul do sujeito. Pegando-a com a mão Davi a colocou em cima da mão imóvel do homem no chão. –Sua máscara está aqui, é só a colocar de novo. Mas prenda a respiração, o ar daqui não faz muito bem, sabe?
-Desgraçado. –Disse o homem selando os lábios e amaldiçoando Davi com os olhos.
Se atentando aos sons, ele sentiu uma fisgada lhe puxar a direita, recolocando o elmo. “Nissa? ” Perguntou ele sem voz. “Três ameaças neutralizadas. Um suspeito está correndo em direção ao grande deserto a 2,759 metros por segundo. ” Ele sorriu ao ouvir a voz dela em sua mente. “Como elas estão? ” Perguntou ele se virando para olhar Naya. “Uma sofreu arranhões e uma provável contusão no lobo parental. A outra sofreu um tiro no tornozelo, está perdendo sangue. ” Davi girou seu corpo para olhar a grávida no chão se arrastando, esticando no chão uma linha vermelha que a separava de seu pé direito.
-Você é um... –Disse Naya se aproximando mancando com um filtro em mãos. Davi se voltou para ela e retirou novamente o elmo, pressionando o círculo azul claro em seu centro. A armadura de lâminas se soltou e caiu no chão desmontada. -Você é um alado!
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PRIMEIRA VEZ JOGANDO GTA SAN ANDREAS PELO CELULAR. (TIVE ...

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